Aquele mês de outubro amanheceu quente e ensolarado.
Como a roça carecia de chuva!
Céu azul, sol a brilhar, nada indicava que a chuva iria cair. Mesmo que fosse devagar.
A primavera anunciava-se sem o menor indício de chuva. Tomara, no mais tardar na próxima semana, nuvens cinzentas indicassem a presença da tal chuva benfazeja, que caísse em pingos mansos, a tamborilarem no vidro da janela.
Mas não era isso que a quentura do dia indicava. Uma poeira amarela entrava narinas adentro. Tornando a respiração mais dificultosa ainda.
Naquele dia primeiro, começo de outubro, Tião Desassossego acordou com um estranho pressentimento.
Sonhou com uma chuva forte derriçando árvores, pondo a deitar a roça de milho em ponto de pendoar.
Levantou no meio da noite. Estava escuro ainda. A lua bocejava de sono. O céu mostrava-se da negritude das asas dos urubus.
Abriu a janela do quarto de dormir. Nada se via ao longe. Uma coruja, no cume de um cupim, espreitava à distância uma presumível presa. Naquela hora, quase madrugada, nenhuma vivalma se via. Estava escuro. Nem a luz da lua dava conta de clarear as cercanias.
O relógio assinalou cinco da manhã.
Depois de uma noite mal dormida Tião, depois de um café requentado na trempe do fogão a lenha, acompanhado de uma broa de milho, foi ao banheiro.
Tomou uma ducha fria. Escovou o que restava dos dentes quase banguelas.
E foi ao curral ordenhar a vacada.
E como o velho Tião adorava as vacas. No meio delas ruminava.
Uma, em especial, era de sua maior predileção.
Era uma vacona enorme. Resultado de cruza de um boi nelore com uma vaca mestiça.
Ela fora batizada de Corona. Pois havia parido justamente no começo da tal pandemia. Que até hoje se alastrava como fogo na pastaria ressequida.
Tião Desassossego deixava a Corona para o final da ordenha.
Pois ela, segundo se mostrava, era arisca como passarinho em seu voo errático assim que aprende a voar.
Naquela manhã de primavera, no primeiro dia de outubro, Tião terminou de ordenhar as vacas no mais tardar antes das dez da manhã. Era tarde, segundo seu costume.
Foi quando soltou o bezerrinho da linda Corona antes preso no bezerreiro.
Com que fome ele grudou nas tetas da mãe. Tião, embevecido pela cena, deixou mãe e filho ficarem tempos na sala de ordenha.
Foi quando notou que as narinas da melhor vaca do curral instilavam uma secreção amarelada.
Corona tossia. Percebia-se nela uma falta de ar.
Ao medir a temperatura da vaca constatou, preocupado, que ela estava elevada.
Corona estava febril.
De pronto levou-a ao veterinário. Foi feito o diagnóstico da tal virose. Corona havia contraído o Coronavirus.
Tião Desassossego, esperando na antessala do hospital veterinário, assim que o doutor das vacas passou por ele, num átimo perguntou, antevendo a reposta: “é verdade que minha querida Corona esta contaminada por esta virose? Não sabia que os animais podem ser acometidos por esta praga. Por favor, doutor, salve a minha Corona querida”!
Ela passou uma semana internada. Infelizmente a Corona não resistiu.
Ainda dizem, nos arrabaldes, quando alguém comenta sobre o óbito daquela vaca, o velho Tião, desassossegado, com olhos rasos d’água, diz, mal acreditando no acontecido: “justamente ela. Poderia ter sido eu”.