A seca castigava aquele lugarejo distante de tudo e de todos.
A poeira entrava pelos nossos narizes. A relva ressequida era um convite aos incêndios.
De vez em quando uma chama crepitava ao longe.
A vida para aquele homem da roça, chamado de Zé Se Vai ao Longe, dado ao seu costume de caminhar léguas atrás de alguma rês extraviada, sempre começava bem cedo.
Antes das cinco ele se punha de pé.
Esfregava os olhos sonolentos. Lavava a cara meio adormecida numa bica pertinho da cozinha.
Penteava o que restava dos cabelos ralos.
Antes da cinco e meia já estava no curral.
A seguir, com uma canequinha esmaltada nas mãos, no fundo um dedinho de café feito no dia de ontem, enchia a caneca de um leite quentinho. Espumante, tirado na hora.
Bebia aquele mingau em um só gole. Uma broa de milho era a companhia de todas as manhãs.
Tirava o leite da vacada em menos de hora e meia. Não tinha ordenhadeira. Eram seus dedos espremedores os autores da façanha. Eram mais de duzentos litros de leite frio. Os quais eram vertidos num tanque de expansão novinho em folha.
O caminhão leiteiro buzinava no alto do morro. Quando não chovia ele descia a beira do curral.
A renda do leite era pouca. No entanto, naquela primavera seca, em plena estiagem, o preço do leite foi às alturas. “Graças ao bom Deus”, dizia ele.
Zé era profundamente agradecido por tudo que havia conquistado. Nunca o vi contrariado.
Se a roça de milho não dava coisa que prestasse, mesmo assim ele agradecia. E caso a melhor vaca do curral atolasse num brejinho perto, ele mesmo dizia: “é coisa do destino. Pior se fosse eu”.
Zé era um otimista de mancheia. Tudo ia bem. Mesmo que a corrente remasse ao revés.
Naquela manhã de primavera, céu azul, sol a esquentar, Zé acordou com um estranho pressentimento. Sonhou que iria chover. Apesar de nenhuminha nuvem cinzenta se mostrar no alto.
Antes das sete da manhã, com a primeira tarefa concluída, Zé recebeu a visita de um vizinho de pasto.
Era um jovem acostumado a boa vida da cidade.
Pereirinha, bom vivant, mal sabia quando a vaca dá cio. Quando a porca está pronta a receber o macho. Assim qual a lua melhor para o plantio.
Pereirinha se mudou para aquela rocinha há coisa de dois anos passados. Quando alguma dúvida o assaltava recorria ao vizinho.
Naquela manhã de primavera, por volta das sete da manhã, Pereirinha passou pela roça do amigo. A longa estiagem o incomodava. Não sabia o que fazer para alimentar a vacada.
A silagem de milho havia terminado. O sol inclemente açoitava a terra com sua língua de fogo.
A pergunta que ele lançou ao vizinho foi respondida com a mesma sabedoria de um sábio.
“Será que vai chover”?
Seu Zé olhou pro alto e respondeu, num átimo: “com certeza. Hoje a Braúna eriçou o pelo. A égua levantou o rabo. E a galinhada acordou cacarejando agoniada”.
E não é que de repente desabou uma aguaceira danada!
Até hoje, quando alguém tem uma dúvida, sobre o tempo, recorre ao Seu Zé. Nunca o vi se equivocar. Suas previsões sempre são acertadas. E, se ele erra, de repente, não é por culpa dele. A culpa recai sobre as galinhas. Ou quem sabe sobre a vaca que eriça o pelo na hora errada.