Trabalho não metia medo naquele homem da roça.
Era pau pra toda obra.
Começou com uma pequena propriedade nos cafundós de Judas. Comprou meia dúzia de vacas tatu com cobra. Tirava, a principio, um leitinho minguado.
A seguir, com o tempo manquitolando, graças a uma mula empacadeira, foi se desenvolvendo, comprando mais terras, fazendo catiras aqui e acolá, até chegar ao estágio quando o conheci.
Esperto como um saci, embora fosse branquinho como algodão a ser colhido, depois de passado no alvejante, aos trintanos se tornou um fazendeiro respeitado em toda a região.
A tal mula, seu xodó, até hoje mora naquela enorme gleba de terras. A ela foi reservado um pasto especial. Cheio de capim gordura. Pertinho de uma represa. Onde ela pode se refrescar, num dia de sol a pino, à sombra de uma matinha frondosa. Onde, segundo as línguas ferinas, o jovem Zé Peleja aprendeu a arte de namorar. E até hoje ela pode ser vista pastando, gozando a merecida aposentadoria.
A tal mula branca, gorda como um capado obeso, recebeu o nome de batismo de Doroteia.
Dizem, nos arrabaldes, que de vez em quando ela dorme na cama do Zé Peleja. Embora não possa comprovar. Mas que todo boato tem um fundo de verdade não há quem duvide.
Era tempo de eleição. Começo de primavera os candidatos já davam o ar da desgraça. Nas redes sociais não se falava noutra coisa. Era cada cara de fazer urubu evitar a carniça.
Tião da Canjibrina, Chico da Mãe Latrina, Peruca da Felizbina, Zé do Povo, embora nunca tivesse sido considerado humilde na sua vidinha insossa, eram os postulantes a uma cadeira na câmara municipal, naquela cidadezinha perdida no interior das Minas Gerais. Foi naquele sábado, quente, sol a chorar de amarelo, quando o Zé Peleja teve de ir à cidade.
Ali chegou num trator último tipo. Na cabeça um chapéu de boa marca. Nos pés uma linda botina gomeira. Vestia a melhor fatiota que encontrou no armário. Até que ficou bem apessoado o nosso amigo Zé. Uma vez na cidade não se falava noutra coisa. Santinhos espalhados pelas ruas. Embora ainda não fosse permitido fazer campanha os postulantes já mostravam as caras.
E era cada um de fazer corar uma doce moça pudica. Espertalhões, indivíduos sem a menor capacidade de exercer um cargo público, disputavam palmo a palmo os votos.
Zé Peleja assustou-se com tudo aquilo.
Dois meses se passaram. Chegou a hora de enfiar o voto na urna.
Novembro se fez inteiro. Pela metade. Bem dito. Melhor seria um dia maldito.
Assim que Zé Peleja chegou à cidade, montado na Dorotéia, toda arreada com uma sela novinha, cheirando a seiva de alfazema, usando um perfume com odor de alecrim do campo, a cidade estava cheinha de pessoas usando máscaras.
Cabos eleitorais alardeavam quem seria o melhor candidato.
Zé Peleja ainda não sabia em quem votar. Tanto para prefeito como para vereador. Era uma enxurrada de candidatos cada um pior que o outro.
Naquela indefinição de última hora, assim que se aproximou da urna, que não é funerária, passou-lhe pelas lembranças o nome de Doroteia.
Pena que ela não constava entre os candidatos.
Acabou anulando o voto. Nenhum deles merecia a sua escolha.
Até hoje ignoro se Zé Peleja fez certo. Talvez lhe siga o caminho. Tenho tempo para pensar. Só falta, na hora de votar, me decidir pela mula Doroteia. Quem sabe, até lá, seja aceita a sua candidatura. Afinal são tantas as cavalgaduras, que uma a mais, outra a menos, não vai fazer diferença entre este ou aquele candidato.