Assuntos que não me dizem respeito

Nesta fase da minha vida, uma vez a infância perdida, anos não voltam mais, me atrevo a não me imiscuir em certos assuntos.

Talvez por não apreciá-los. Prefiro ignorá-los. Palpitar sobre eles, então, atualmente só faço o que me apraz.

É um direito que me assiste. Se disserem que sou omisso. Tapo os ouvidos.

Já passei por tantas coisas.

Perdi amigos. Sofri por causa deles. Deixei de abraçar a quem deveria. Enderecei outros abraços a pessoas as quais desdenharam da minha amizade.

E não me arrependo por isso. Ao revés. Se pudesse voltar no tempo, com o mesmo desprendimento, voltaria a ajudar as mesmas pessoas. Embora elas não me pedissem ajuda.

Nesta fase da minha existência prefiro falar de flores. E como elas são lindas na primavera.

Ler é outro hábito que me assedia. Escrever, então, é outra paixão que me inebria.

Passar horas e horas ao lado dos meus netinhos, ah!, se pudesse, e meu tempo permitisse, deixaria o trabalho de lado, e voltaria correndo a primeira infância.

Correr como o vento, exercitar-me na academia, são costumes em mim arraigados, desde que me tornei idoso.

O trabalho nunca me meteu medo. Aposentar-me, por completo, jamais.

Nos anos que me restam, se a saúde me permitir, pretendo continuar na mesma faina diária.

A medicina, pra mim, é a razão do meu viver. Assim com a literatura me faz esquecer das atribulações diárias.

No entanto, para quebrar o meu encanto, já que estamos nos aproximando das eleições, fico no meu canto. Não declaro as minhas preferências. Fico calado. O assunto politica não faz parte dos meus melhores momentos.

Embora considere o voto um mal necessário, enterro-o na urna. E dispenso velório.

Nunca me candidatarei a nenhum cargo eletivo. Tenho medo de me imiscuir na podridão que o rodeia.

Já apreciei o futebol. Quando morava em Belo Horizonte torcia pelo Cruzeiro. Bons tempos aqueles de Tostão e o pequenino Dirceu Lopes. Ia ao Mineirão quase todos os finais de semana.

Depois das arruaças das torcidas, da azáfama na saída dos estádios, passei a desgostar do futebol. Passei a torcer pelo esporte das raquetes. Mudei de ícones. Os ídolos da bola em absoluto não me fazem a cabeça.

Prefiro os enxadachins da roça. São eles os verdadeiros heróis. Nonada, enxadachim, circuntristeza, tão bem decantados por Guimarães Rosa.

Os assuntos – politica, futebol, prefiro admirá-los de longe.

Já passei por tantas coisas. Tantos percalços.

Por isso, nestes tempos hodiernos, outros assuntos pra mim são mais relevantes.

Prefiro comentar sobre poesia. Sobre este céu que me alumia. Sobre as estrelas em noites de lua. Sobre o amor. Tão em falta nestes dias tormentosos.

Em quem eu voto? Nem às paredes confesso…

 

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