E ainda tem quem acha fácil.
Acordar antes das cinco da manhã. Faça chuva ou incendeia o sol.
Sob aquela neblina cinzenta ter de procurar a rês extraviada. Que acabou parindo a noite passada. E escondeu a cria na intimidade de um matagal.
Quando chove o barro gruda na sola da botina gasta. E a pobre vaquinha tatu com cobra acaba atolando no brejo cheinho de taboas. É preciso upa para desagarrar a incauta. Não fosse a ajuda do vizinho de cerca não sei o que seria da pobre Braúna, mãe de uma linda bezerrinha nascida trasanteontem.
E a porcada faminta? Que grunhe no chiqueirinho improvisado esperando a ração do dia? É preciso fôlego de caipira para dar conta de tantos afazeres.
Naquela madrugada molhada eis que faltou energia. Caiu um raio que o parta pertinho da porteira prestes a cair de susto.
Foi naquela manhã de primavera que o amigo Barnabé recebeu uma visita da cidade.
Ele já estava no curral. Como o lugar estava sem energia ele tinha de ordenhar as vacas usando apenas os quatro dedos da mão direita. Não que lhe faltasse decoro. Como certo presidente, em verdade ele havia perdido o dedo polegar na picadeira de cana. Há anos passados.
A partir de então Barnabé se acostumou a usar a mão estropiada com a mesma maestria de dantes. O dedo perdido não lhe fazia falta. Aposentar-se da lida? Jamais.
Assim que chegaram à roça aquelas visitas inoportunas, naquela hora imprópria, o pobre Barnabé quase caiu de costas. Era preciso terminar a ordenha. Para depois tratar da vacada sempre faminta.
A carroça o esperava pronta a subir o morro agudo. O cavalo eunuco já estava atrelado à carroça. A roça de milho dava gosto de ver cada espigão dependurado ao pé de milho.
Era só derriçar a arvorezinha e amontoar tudo aquilo na charrete cheinha de milho picado.
Mas Barnabé, desacostumado a receber visitas, tinha de fazer sala àquela turma da cidade.
Eram parentes por parte da mãe. Gente quase desconhecida.
Quem se anunciou foi uma linda mocinha usando um shortinho tão curto que quase não lhe escondia as partes intimas.
Ao lado dela jovens, quase garotos, não sabiam identificar uma vaca de um boi.
Ao todo eram quatro. Jovens ainda. A convite da garota despudorada aceitaram, sem desagravo, fazer aquela visita à roça do Barnabé.
Foi a moça quem falou: “bom dia Barnabé. Estamos aqui de passagem. Meus amigos gostariam de aprender um pouco da vida na roça. Todos eles desconhecem como se vive por aqui. São neófitos no assunto. Desculpem-me a visita sem agendar o dia. Estamos em férias. É só neste final de semana”.
Barnabé, atarefado como sempre, torceu o bigode de impaciência. E terminou a ordenha, pois já era tarde da hora.
A hora do almoço, como não tinha cozinheira, foi ele mesmo quem preparo a comilança.
O pessoal da cidade comeu a encher a pança.
A seguir, antes da hora da sesta, encheram o pobre Barnabé de perguntas indiscretas.
“É sempre assim? Você acorda cedo? Tem de ir ao curral? As vacas já estão esperando? Elas dão leite de graça? É só apertar as tetas que o leite sai? E a bezerrada faminta. Eles bebem leite na mamadeira? Ou tem de comprar leite em pó no supermercado? Quando custa um litro de leite? É o mesmo preço da cerveja? Fica barato produzir leite”?
Barnabé, doido para se ver livre da moçada, respondeu a todas as perguntas com esta frase lapidar: “vaca não dá leite. É preciso tirar”.