Quantas vezes me deparei com um andarilho.
Destes tantos que vagueiam pelas estradas.
Confesso que sempre tive uma inveja reconditamente escondida dentro de mim deste tipo de vida. Sem contas a pagar. Sem direção. Sem compromissos a não ser com as estradas. Contando as estrelas em noites enluaradas.
Um dia, tempos avoam, quando corria em direção a minha casa beira lago, era um percurso longo, mais de quarenta quilômetros, avistei, ao longe, um caminhante.
Ao passar por ele, uma pessoa magra, olhos perdidos no infinito, fiz-lhe uma pergunta, em tom de gracejo: “São João Del Rey fica longe”?
Foi quando ele me respondeu, com uma tranquilidade que me fez pensar: “passei por lá há dois dias. Estou vindo de Juiz de Fora”.
Na hora não tive tempo de retrucar. Ainda faltavam alguns quilômetros para na minha casa chegar. Não estava cansado. Apenas inspirado por aquele jovem. Um andarilho vindo de longe. Bem mais distante de onde minha corrida deveria terminar.
Hoje, neste dia lindo, ensolarado, começo de setembro, o calendário mostra quatro, ao cruzar a rua, antes de chegar ao prédio, neste sétimo andar, deparei-me com um sem- teto.
Ele passara a noite debaixo de uma marquise. Enrolado em um cobertor acabara de abrir os olhos sonolentos.
Movido por um sentimento inexplicável, talvez tenha sido curiosidade, parei junto dele.
Interpelei-o afavelmente. Inquiri se ele precisava de alguma coisa. Uma esmola talvez. Um dinheirinho para que ele tomasse o café da manhã.
Ainda de olhos quase fechados ele balbuciou algumas palavras. Quase ininteligíveis: “não senhor, estou bem. Não careço de nada. Obrigado”.
Na hora estranhei a resposta. Não era comum em se tratando de esmolantes.
Mesmo assim, pois estava adiantado na hora, tentei continuar a inquisição.
“De onde vem? Pra onde vai. O que faz na vida”?
“Quer saber mesmo doutor? Sou advogado por profissão. Mas, desde quando me formei, por culpa de muitas contrariedades, acabei deixando de lado meu diploma. Minha esposa me abandonou. E meus dois filhos foram com ela. Desde então vivo nas ruas. Sou natural de uma cidade grande. Mais ao sul”.
Permaneci alguns minutos mais junto dele. Tentando retirar daquela pessoa desiludida um cadinho da sua história.
Seu nome era Antero. Sobre o sobre não fui informado.
Antes de me despedir, já eram quase seis e meia da manhã, mais uma vez interpelei aquele senhor com uma pergunta indiscreta: “não sente falta da vida de antes. Quando ainda tinha uma família e uma profissão”?
Antero me respondeu bucolicamente: “quer mesmo saber, doutor? Absolutamente não. Sou feliz a minha maneira. Sem lenço, nem documento tenho mais. A responsabilidade ficou pra trás. Os compromissos, as audiências, o tribunal do júri, deles não tenho saudade. Hoje perambulo pelas estradas. As contas não me preocupam mais. Que cortem a luz. pois Ninguém pode apagar a luz das estrelas. Hoje estou aqui. Dormindo nesta calçada. Antes nem dormia direito. Fazia uso de medicamentos de tarja preta. Agora durmo com um bebê. Uma cachacinha ou outra não me faz mal”.
Deixei o andarilho Antero dormindo de novo.
E agora penso. Por que razão a gente não dorme direito? Seria por muitos motivos. Entre eles a azáfama do dia após dia. As contas que entulham o tampo da mesa. O excesso de compromissos.
Quem sabe seria melhor copiar o modus vivendis de um andarilho. Sem lenço nem documentos. E sem nos preocuparmos com as tais perspectivas de crescimento de um país que só rema pra trás.