Solidão por vezes machuca. É como se um punhal nos fosse ensartado no peito. Fazendo sangrar. Sem, no entanto nos levar à sepultura, lugar para onde todos nós iremos, mais cedo ou mais tarde. Na fatalidade chamada vida.
Sentir-se isolado do resto do mundo por vezes se torna necessário. A azáfama do cotidiano nem sempre é bem vinda. Principalmente nestes tempos de pandemia. Quando nos é aconselhado o isolamento.
Assim vivia um compadre da roça.
Seu Benedito, meu vizinho de pasto, era um ermitão por excelência.
Desde quando perdeu a esposa, que não lhe deu filhos, aquele homem bom, já idoso, havia dobrado a idade dos oitenta, vivia solitário. Num pedaço de chão distante da civilização, a léguas de distância da cidade mais próxima.
“Eu me basto”. Dizia ele.
Em verdade Seu Benedito tinha saúde a emprestar aos mais jovens.
Até aquela idade jamais precisou procurar médico. Uma gripezinha ou outra nunca lhe jogou na cama. Remédios não eram de sua predileção.
Um dia, não me lembro bem de quando foi, procurou-me no consultório, sem agendar consulta.
Veio só. Do lado de fora da sala escutei a minha secretária perguntar quem era ele. E o que desejava com o doutor.
Daqui de dentro escutei uma vozinha velha conhecida. A qual dispensava apresentação.
“Olha aqui, minha senhora. Sou vizinho do doutor. Ele me conhece desde tempos passados. Procurei-o não por sentir saudades. E sim por causa de um incômodo que sinto ao urinar”.
Não carece dizer que ele, de tanto insistir, adentrou a minha sala sem pagar consulta. Disse que havia vindo às pressas. E que pagaria depois.
Assentou-se a cadeira defronte a minha, desgraciosamente. Uma fedentina de urina empestava o ambiente.
A nossa prosa foi curta. Apesar de a nossa amizade ser longa.
“Desculpe-me a insistência”, balbuciava ele.
“Acontece que a noite passada não dormi direito. Ia ao banheiro de meia em meia hora. Senti que a bexiga não esvaziava”.
Depois de examiná-lo criteriosamente emiti o diagnóstico de Hiperplasia da Próstata. Trocamos meia dúzia de palavras antes da despedida.
Foi quando ouvi do meu compadre estas palavras que agora transcrevo. Tal e qual elas me foram ditas: “hoje não me sinto tão só. Tenho a companhia da sua amizade. E isso me basta. Vivendo naquela rocinha encantada, durante a noite tenho a companhia das estrelas. Do canto do sabiá. Dos canarinhos da terra ciscando o esterco do curral. E do mugido manso das minhas vacas baldeiras. E tudo isso me basta para ser feliz”.
Quando o meu amigo da roça virou as costas, não sem antes me desejar um bom dia, em verdade concluí. Nada como amar a solidão. Desde que não se sinta só. Mais vale a companhia do silêncio do que o vozerio desequilibrado do burburinho da cidade.