Nota de falecimento.

Cansei de assistir, todos os dias, a noticias de mortes mundo afora.

Não se fala noutra coisa. Luto, sepultamentos, lágrimas escorrendo pelo cantos dos olhos, famílias inteiras lastimando a perda de entes queridos.

A tal pandemia tem-me tirado o sono. Já não dormia a contento.

Até parece que outras enfermidades deixaram de existir. O câncer, as doenças do coração, que eram prevalentes, ganharam uma folga. E os pobres pacientes que tinham suas cirurgias eletivas agendadas aguardam, sine die, quando vão poder operar aquela hérnia que tanto incomodava, aquela próstata que entupia o canal da urina, assim como outras patologias que afligiam o doente, principalmente aquele oriundo do sistema único de saúde. Infausto acontecimento que nos macula a dignidade.

No meu face as notas de falecimento exibem uma tarja preta. A cada manhã observo famílias enlutadas. E pessoas, consternadas, emitindo seus sentimentos de solidariedade. Mostrando pêsames mesmo a quem não conheciam previamente.

Da mesma forma deixo aqui, neste texto de hoje cedo, neste final de agosto, dia lindo, ensolarado, as minhas sinceras condolências a todos aqueles que perderam seus entes queridos, nestes tempos ruins por que estamos passando.

Outras mortes me tem feito pensar.

O falecimento da honestidade, da falta de punição daqueles políticos safados, da preservação ambiental, da falência dos costumes, da desigualdade que campeia por todo o território nacional.

Meus pesar pelas injustiças que são cometidas. Pela pobreza que nos machuca os sentimentos. Pelas crianças abandonadas. Pela fome que é constatada. Pela crise durante estes tempos difíceis que estamos atravessando. Sem hora de terminar.

Exibo aqui, minha nota de falecimento pelas instituições sérias que são fechadas a cada dia. Pela falta de discernimento das pessoas que elegem indivíduos sem a menor capacidade de nos dirigir.

Deixo aqui o meu pesar, minha nota de falecimento, pela bancarrota de um sistema falido, por tanta violência que campeia por todas as partes, não só aqui, da mesma forma em todo o mundo.

Deixo aqui registrada a minha nota de falecimento, pela falta de perspectivas de crescimento deste país continental.

Confesso-me cansado de tantas noticias ruins. Melhor seria se o meu desabafo fosse não apenas estas notas de falecimento.

E sim notícias boas. Como estas, listradas agora.

A tal pandemia teve seu epilogo. Os hospitais voltam as suas rotinas normais. Ao invés de notas de falecimentos apenas fossem registrados nascimentos.

Que as crianças pudessem voltar às escolas. De carinhas sorridentes. Sem máscaras a esconderem os seus sorrisos.

Que as ruas se entupissem de pessoas. Que retornassem os abraços. O afago sincero. O carinho.

Basta de notas de falecimentos. Chega de luto. Que o preto se torne multicor. De todas as cores do arco-íris.

 

 

 

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