Como é bom viver mais anos.
Quando a juventude passou. A infância ficou de lado. A fase adulta foi percebida a léguas de distância.
Entramos na senilitude. Prefiro ser chamado de tio a velho gagá.
Embora tenha ultrapassado a idade dos setenta ainda me sinto jovem. Felizmente o tempo tem sido benevolente para comigo.
Faço tudo que fazia dantes. Ando, corro quando a ocasião permite, nado com um pato sem asas.
Antes, quando morava no condomínio, os garotos me chamavam de poeta-atleta. Mal sabiam eles que não era capaz de poetar. Faço prosa. Conto causos. Principalmente dos meus amigos da roça. Pessoas que admiro desde quando as conheci.
Nesta fase da vida, ainda longe da aposentadoria, para mim, ficar sem nada a fazer, é o fim da picada. Permito-me fazer apenas o que me apraz.
Não mais tenho a responsabilidade, devido à idade, de me comportar como se fosse um jovem descompromissado com o futuro. Pois ainda sou ligado ao passado. Intimamente unido ao presente. Pensando ter muitos anos pela frente. Embora não queira saber quantos anos mais.
Permito-me ficar à toa quando a vontade dita. Da mesma forma permito-me trabalhar quando a precisão indica.
Da mesma maneira me permito viajar sem sair do lugar. Viajo escrevendo. Pelas letras, unindo palavras, avoo sem ser preciso me trasladar.
Permito-me amar as pessoas sem precisar demonstrar. Amo através do meu oficio. Aprendi a ter discernimento entre o certo e o errado. Através da arte de curar descobri que algumas palavras de conforto valem mais do que mil medicamentos.
Nos dias de agora ouço mais do falo. Aprendi a escutar antes de emitir opiniões.
Agora me permito ir e vir a qualquer lugar. Deixo o carro na garagem. Uso as pernas ainda fortes o bastante para me levar. Aonde quero. Não onde as pessoas desejam.
Permito-me, quando a ocasião enseja, amar e ser amado. Brincar com meus netinhos. Fazer de conta que sou como eles. Apesar da enorme diferença de idade.
Permito-me, quando faz sol, me acalentar debaixo dele. E quando chove me esbaldo nas enxurradas. Fazendo barquinhos de papel, torcendo para que eles alcancem o rio, e depois o mar.
Hoje me permito olhar o céu. Pensando que nele moram meus pais. Conto as estrelas em noites enluaradas. Tento pegar pirilampos como se fossem estrelinhas desgarradas.
Agora me permito ficar de boca fechada. Quando o interlocutor não me agrada.
Hoje, entrando na melhor idade, me permito não ter vaidades. Uso o espelho não para pentear o que resta dos meus cabelos. E sim para admirar o que o tempo faz.
Permito-me, nesta altura da minha existência, fazer apenas o que o meu desejo dita. Pena que não sou capaz de predizer o futuro. Mesmo assim me permito não me desvencilhar do passado. De olhos abertos para o presente. Seguindo em frente. Enquanto a vida me levar.