A linha divisória entre o certo e o errado sempre me confundiu os neurônios.
Da mesma forma que os limites entre a sanidade e a louquice sempre causaram confusão no meu discernimento.
A justiça dos homens por vezes falha. A lei nem sempre é igual para todos.
Julgar é missão por demais difícil. Pra ser isento mister se faz olhar para dentro de si mesmo.
E nem sempre a imagem refletida reflete os nossos pensamentos. E muitas vezes indivíduos tipos como culpados cumprem penas sendo em verdade inocentes.
Quando da minha passagem pela cadeia, durante meses, ao retratar em meu livro intitulado O Mundo das Sombras, o que acontece naqueles espaços lúgubres, aprendi, com os detentos, que quem paga cadeia faz parte das três categorias, listradas agora: preto, pobre e prostituta.
Não pairam dúvidas. É a mais contundente verdade.
Estamos em plena pandemia. Somos recomendados a ficar em isolamento. Soberbamente os mais velhos. Os idosos são considerados grupos de risco.
No entanto quem me garante que somos nós os mais susceptíveis a tal virose? Jovens da mesma forma perdem a vida. As estatísticas comprovam. Concordo que doenças coexistentes corroboram nesta assertiva. Aqueles que sofrem de enfermidades das vias aéreas, portadores de diabetes, hipertensos, são mais propensos a se deixarem contaminar.
Os velhos têm prerrogativas múltiplas. Ou deveriam gozar de certos direitos. No entanto nem sempre é o que se observa. Torna-se cada vez mais comum assistir, em nossas caminhadas pelas ruas, a pessoas idosas viajarem de pé, quando os seus assentos estão ocupados por jovens desligados da realidade, pessoinhas mal educadas, que um dia estarão velhos, pois até hoje não descobriram a receita da juventude eterna.
Estamos em plena pandemia. Mortes são anunciadas a cada dia.
Máscaras escondem a verdadeira identidade. Elas passaram a ser artefatos da moda.
Ontem fui informado que as academias seriam abertas. Embora com certas restrições.
Fui logo tentar agendar a minha vez. E como elas fazem bem a nossa saúde! Graças a elas as doenças ainda não se aboletaram dentro de mim.
Foi apenas uma alegria passageira. Como as chuvas de verão.
Pelo telefone fui informado que na minha idade deveria esperar um pouquinho mais.
As faixas etárias contempladas seriam entre os quinze e sessenta anos.
Aqueles que ultrapassaram os sessenta estariam de fora da vida saudável. Como se fosse pecado passar de certa idade.
Na hora não respondi a simpática interlocutora. Simplesmente aceitei as deliberações.
Seria justo tal restrição? Os de mais idade não têm o direito a uma vida saudável?
Foi quando me reportei ao meu Mundo das Sombras. Lá nem sempre a justiça é feita. E muitos inocentes pagam cadeia. Simplesmente por fazerem parte dos três PS : preto, pobre e prostituta.
Tomara um dia não incluam os velhos nessa triste realidade. E nos façam justiça. Afinal ser velho não é nenhum pecado. Eles, nós, merecemos tudo de melhor, por nossa vida pregressa.
Aposentadoria nada mais é do que desfrutar de anos e anos de trabalho. Por justo merecimento.