Quase um sonho

Sonhar é preciso. Desde que não se tire os pés do chão.

Assim dizia o meu avô. O honorável Rodartino Rodarte, que sempre andava a pé, com aquele terninho azul marinho, de listras brancas, um suspensório amarronzado, que talvez impedisse suas calças de irem ao chão.

Ainda me lembro dele com sua habitual impaciência. Assentava-se a um banco no meu consultório. E quem disse que ele esperava a sua vez? Adentrava porta adentro. Não para ser examinado. E sim para dar a sua benção ao seu neto primeiro. E me aconselhar paciência.

Sempre fui um sonhador. Um menino que sempre acreditou em Papai Noel. Que cria que vagalumes eram em verdade estrelinhas miúdas a avoarem alto demais. E que perdiam o chão por sonharem demais.

Sonhei, um dia, em crescer. Assim que espichei um cadiquinho percebi que ser adulto não era tão bom como ser criança. No entanto o tempo passou.

De menino sonhador tornei-me doutor. Um doutor que acreditava que a medicina era um sacerdócio. Com o tempo passando, com os anos me abraçando, descobri que não era bem assim.

Em verdade o tempo me mostrou que a saúde não era bem um direito de todos. O trabalho diário me ensinou que existem filas imensas a espera de atendimento. Que nem todos são examinados quando mais precisam. E que as doenças não mandam recado. Elas aparecem do nada. E muitas vezes levam ao óbito.

Sonhava muito. Ainda sonho. Já hoje muitos destes sonhos se desfizeram na bruma do tempo.

Sonhava com um mundo igual. A verdade se mostrou anos depois. As diferenças sociais se aprofundam cada vez mais. Enquanto pessoas passam dificuldades outras se locupletam de altos salários. E não aprendem que a solidariedade deve sempre predominar. Neste mundo tão díspare. Onde a pobreza impera. E a opulência nos ofende a dignidade.

Ainda sonho. De olhos abertos, sempre desconfiado.

Sonhava ter muitos filhos. E incontáveis netinhos. No entando minha família é pequena. Somos apenas eu, minha mulher, dois filhos, e três netos. Graças ao bem Deus vivemos em harmonia. Algumas desavenças existem. Mas nada que nos impeça de demonstrarmos o amor que campeia entre nós.

Antes sonhava mais. Já hoje, quase uma vida passada, prestes a inaugurar idade nova, já passei dos setenta, ainda sonho um cadinho.

Sonho de olhos abertos. Já que  quase não tenho sono. Acordo ao nascer do sol. Durmo ao despertar da lua.

Sonho com um país mais fraterno. Onde as oportunidades de emprego sejam distribuídas igualmente em todas as camadas sociais.

Um país onde em verdade a saúde seja um direito de todos. E não como está nos dias de hoje.

Sonho inclusive com um lugar onde a educação, o prazer da leitura, não seja privilégio de uma minoria. Que os bancos escolares em verdade sejam pródigos em oferecer cultura. Que a boa gente do campo seja respeitada em seus anseios.

Sonho demais. Hão de concordar.

O que seria de mim sem a inspiração que me cavouca a alma? Um mero sonhador sem desejo de acordar.

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