Ainda me lembro daquele velho senhor.
Ele sempre me passou coisas boas.
Nosso convívio sempre foi dos melhores. Ele não só foi meu conselheiro como velho amigo.
Uma vez na infância, perdida em anos passados, foi na sua casa que me aconselhei com ele.
Encontrei-o já acamado. Ele vestia um pijama listrado. Prestes a dormir.
Trocamos um dedo de prosa. Estava passando por tribulações. Preocupações me assaltavam.
O que seria de mim num futuro perto? Estava indeciso no que seria de mim.
No entanto, aquele velho senhor, prestes a deixar a vida, antes de fechar os olhos de sono ainda teve tempo de me aconselhar: “não se apoquente. Deixe o tempo passar. A vida deve ser vivida a cada momento. O futuro um dia virá. Faça por onde merecer o que o futuro lhe reserva. A paciência é uma qualidade que deve cultuar”.
Passamos minutos juntos à beira do seu leito. Eu mais escutava do que falava.
Meses depois retornei a sua casa. Estava mais aliviado. Aprendi com ele a me deixar levar pelos anos.
Encontrei-o ofegante. Seus olhos inexpressivos quase não se abriam mais.
O leito estava empapado de urina. Um odor fétido empestava aquele ambiente sombrio.
Tentei convencê-lo a se internar num hospital. Ele, com aquela candura de menino, embora a mocidade houvesse ficado pra trás, recusou a minha oferta.
Como médico nada pude fazer para convencê-lo do contrário.
Ainda passamos horas e horas numa conversa com sabor de amizade. Ele já não conseguia balbuciar palavras. Eram sons inteligíveis. Quase monossilábicos.
Deixei-o contrafeito. Desejando melhoras ao meu amigo.
No dia de ontem, uma segunda-feira de agosto, ao voltar a sua morada encontrei-o agonizando.
Nada podia fazer para atenuar-lhe o sofrimento. Simplesmente deixei-o dormir. Era seu derradeiro sono.
Numa tentativa insólita levei-o ao hospital. Foi preciso de ajuda para colocá-lo na ambulância.
Dias depois ele veio a falecer. Foi num leito de hospital, longe de tudo e de todos que ele suspirou pela última vez.
Fui eu quem lhe fechou os olhos.
Acompanhei seu féretro até a última morada.
Até hoje me lembro do meu amigo com saudades.
Seus últimos dias foram recheados de sofrimento. Assim aconteceu com aquele grande amigo.
Meu caro professor de quem me lembro com lágrimas nos olhos.