Crenças e descrenças sempre me atormentaram.
Cria, em criança, num Papai Noel de barbas brancas, entrando pela chaminé, levado por um trenó, puxado por renas de chifres alongados, vindas do Polo Norte.
Ao mesmo tempo duvidava de como ele, um tanto obeso, conseguiria passar por aquele canal estreito, escuro, sem entalar.
Acreditava em contos da Carochinha, onde todos eram bondosos, sinceros, e no mundo só existia bondade, sem que a maldade ainda não houvesse contaminado a alma das pessoas.
Acreditava ainda que as crianças não cresciam. E ficavam do tamainho exato para caberem todas elas no coração das mães. Depois de virar adulto percebi, com estes olhos um tanto desconfiados, que em verdade o coração de mãe extrapola em imensidão tudo de bem que existe na terra.
Ainda acredito em muitas coisas. Embora um tanto cético no que diz respeito à bondade humana. Depois de ver tantas pessoas ao desalento, dormindo neste frio pelas calçadas.
Faz um frio de fazer pinguins se acalentarem debaixo de grossos cobertores.
Neste final de semana a temperatura oscilou entre dez e onze graus. Choveu durante a sexta-feira e um cadinho no sábado pela manhã. Hoje o dia amanheceu ensolarado. Faz um tantinho de frio. Mas nada insuportável.
O céu se mostra azul. O sol amarela a terra.
Aqui cheguei por volta das seis e meia. Nesta segunda- feira quase final de agosto.
Um dia como este, frio ao exagero, ao aqui chegar, mais cedo, encontrei o meu aquário quase esvaziado.
Onde estariam meus peixinhos? Perguntei a mim mesmo sem obter resposta.
Procurei por todas as partes. Nadando eles não estavam. Quem sabe escondidos no fundo. Foi onde passei a procurar.
Por dentro da vegetação, entre as pedras, também eles não se encontravam.
Passei minutos inteiros à procura dos meus peixinhos aquarianos.
Fazia frio do lado de fora da sala. Em torno de cinco graus Celsius.
Aqui dentro a temperatura era agradável.
Quase desistindo da busca, quando esperava o computador ligar, deparei-me com uma cena inacreditável.
Um dos peixinhos fazia café. Os outros se aqueciam nas achas do fogão a lenha. Os demais ainda dormiam enrolados em cobertores.
Num passado remoto, anos perdidos no tempo, uma menina, encantada com meus peixinhos, ao olhar para o meu aquário feericamente iluminado pela luz da manhã, disse a sua mãe, com olhos de puro encantamento: “mãe, peixinhos avoam”?
Na hora fiquei sem resposta. E, pensando no dia de hoje, quando vi meus peixinhos tomando café da manhã, nesta manhã fria de final de agosto, acabei respondendo a linda menina; “por que não? É só acreditar que Papai Noel existe. E eu mesmo nunca deixei de acreditar”.
Não sei qual a opinião que a linda menina teve de minha pessoa. Pode ela pensar que sou um tanto insano. Ou mais um contador de histórias que a minha imaginação dita.
Já nunca deixar de acreditar que a vida tem a cores que a gente tinta. E são cores multicores. Das mesmas cores do arco-íris que um dia se mostrou depois de uma chuva mansa.