“Que dia maravilhoso”.

Pra ele sempre era assim.

Mesmo que trovejasse o sol. Ou desaguasse uma tempestade de encher ribeiros. Ou até mesmo o frio enregelasse as costelas. Ou fizesse calor ao destempero.

Zé Manuel, um portuguesinho sempre com um sorriso a mostra, exibindo a dentadura recém-feita a prestação, sempre foi um otimista exemplar.

Pra ele tanto faz, como tanto fez, o tempo sempre estava a seu favor.

Acordava ao cantar do galo. Empoleirava-se junto às galinhas. Tinha um sono pesado. Depois de um dia exaustivo de trabalho.

Zé era um padeiro confiável. Jamais, em muitos anos de serviço, teve uma falta. Era considerado exemplo para o patrão.

No entanto não era essa a sua vocação.

Em menino, nascido em Portugal, de família humílima, naqueles anos ruins teve de emigrar para o Brasil.

De mala e cuia veio como grumete em um navio cargueiro. Aqui aportou quase inteiro. Mais mareado que gaivota naufragada em alto mar.

Zé Manuel, nos primeiros anos aqui passados, experimentou toda a sorte de desventuras. Teve seu passaporte confiscado. Foi afanado de seus pertences. E passou fome o coitado.

Por sorte, naquela maré de azar, num belo dia, embora chovesse a cântaros, conseguiu o primeiro emprego. Foi na mesma padaria onde até hoje persiste.

Naqueles verdes anos contava com menos de vinte anos. Era inexperiente na arte de fazer pães.

Mas esforçado que era logo aprendeu a fazer a massa. E foi, cadinho a cadinho, como se diz na linda terrinha, com aquele sotaque do indefectível pois pois, gajo bom que sempre foi, ganhando a confiança do patrão. Um paulista de boa cepa. Um senhor nascido no Brás, e ali pertinho morava.

Zé Manuel, por ser considerado estrangeiro, não tinha carteira assinada. Teve embaraços quando foi fazer a tal carteira de trabalho. Diziam que ele não tinha nacionalidade brasileira.

Mesmo assim Zé Manuel continuou seu périplo empregatício. Passou anos e anos no mesmo oficio. Embora ainda sonhasse em se diplomar em medicina. Sua real vocação. Desde quando teve o pai enfermo. E acabou morrendo por falta de assistência médica.

Aos trinta anos completos, naquele dezembro passado, Zé Manuel continuava a fazer pães.

Eis que chegou janeiro. Uma chuvarada de fazer alagamentos surpreendeu o afável Zé quando ia fazer vestibular.

Zé, com água pelo pescoço, chegou ao local da prova um cadinho atrasado. Foi impedido de fazer as provas. Mais um ano perdido. Mais um sonho a ser adiado.

Mesmo assim Zé Manuel não desanimou. Continuou na padaria. A espera de nova oportunidade. Na próxima vez iria conseguir seu objetivo. Tornar-se médico era seu intento desde quando saiu de Portugal.

Foi quando o conheci. Ele aqui estava em férias. Gozando de um descanso merecido.

Chovia depois de uma estiagem prolongada. O céu se mostrava escuro. Raios e trovoadas riscavam o alto. O sol nem de longe se deixava ver.

Ao passar por ele, numa praça ainda vazia, era ainda cedo, antes da seis da manhã, vendo aquele rapaz, assentado a um banco da velha praça, debaixo daquela tempestade, sem ao menos um guarda-chuva, tive um lampejo de curiosidade e a ele perguntei: “o que você está fazendo ai? Não tem medo de se molhar”?

Foi quando ele me respondeu, com os olhinhos brilhantes de felicidade: “que dia maravilhoso! Deixe a chuva continuar”.

Depois daquele dia passei a olhar o tempo com olhos de puro deleite. Faça chuva ou nos inunde o sol, tanto faz, como tanto fez.

 

 

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