Seu Agenor

Aquele homem estranho, perdido em seus devaneios, passava horas do dia contando estrelas.

Sempre que o via, ao passar por ele, naquela ruinha sem saída, imaginava de onde vinha, quem seria ele, por que sempre o encontrava naquele beco, assentadinho em seus calcanhares, parece que ele passava a noite inteira sem dormir, desassossegado, perdido em suas lembranças.

Era um senhor de mais idade.

Velhinho, de barbas nevadas, cabelos tintos em branco neve, face crispada pelos anos, silhueta adelgaçada, olhos de um brilho puro. Nunca, embora tivesse uma curiosidade mórbida, até aquela data não lhe imaginava o nome.

Seria Antônio? Seu Manoel? Ou outro nome qualquer. Dentro da infinidade de nomes que as pessoas são batizadas.

Um dia, foram dois dias atrás, criei coragem e parei junto dele. Era uma terça-feira. Dia de céu azul. Manhã de inverno com temperatura de outono.

Ele continuava olhando pro alto. As estrelas estavam escondidas no firmamento.

Foi preciso usar uma dose enorme de paciência a espera que aquele senhor me olhasse nos olhos. Ele continuava a olhar em direção ao céu. Foi quando percebi que seus olhos eram azuis.

Depois de esperar alguns minutos consegui arrancar dele algumas palavras. A princípio não consegui entendê-las. Ele falava num tom gutural. Quase imperceptível. Parecia um miado de gato.

Seu nome era Agenor. E ele contava com quase oitenta anos. Vivia pelas ruas. Não tinha família. Ou algum lugar onde se abrigasse durante as noites frias.

Desde alguns meses atrás dava com aquele senhor no mesmo beco. Ele dormia parte do dia. Durante a noite passava acordado. Procurando, não se sabe donde, alguma estrelinha velha conhecida. Creio que não a encontrava. Embora a procurasse sempre.

Naquela manhã de terça-feira, quando consegui entabular algumas palavras com a sua pessoa, descobri algumas partes de sua vida.

Ele viera de longe. Era um andarilho que caminhava a esmo pelas estradas. Não trazia documentos na algibeira. Não consegui arrancar-lhe de onde tinha vindo.

Ele estava na minha cidade de passagem. Mal trazia bagagem. Apenas algumas roupas surradas que havia recebido de uma senhora que se apiedou de sua imagem gasta pelos anos.

Seu Agenor, segundo me afiançou, não tinha parentes. Estava perdido no mundo desde que se entendia por gente.

Ele estava naquela ruinha sem saída há uma semana contada nos dedos. Depois iria mudar de rumo. Pra onde? Nem ele mesmo sabia.

Naquela manhã de inverno, com a temperatura em ascensão, foi a derradeira vez que o vi. Por mais que o procurasse não o encontrei de novo.

Foi ontem a noite, uma noite escura, no mesmo beco sem saída, no mesmo lugar onde estava o Seu Agenor, deparei-me com uma cena que me fez pensar.

No mesmo canto, no mesmo passeio, estava um gato enorme. Com as barbas brancas. O cabelo tinto pela neve. Os mesmos olhos azuis. O bichano olhava o céu. A procura de alguma estrelinha que iluminasse a noite escura.

Tentei achegar-me ao gato enorme. E ele olhou-me fundo nos olhos. Com uma expressão de candura imensa. Se disser que seu nome seria Agenor podem pensar que seria mais uma insanidade minha.

Acreditem se quiserem. O gato em verdade miou. “Sou sim, o Seu Agenor. Deixei uma das minhas sete vidas se transformarem de novo. Amanhã talvez mude. A vida seria insuportável não fossem as mudanças”.

E não tive como não concordar com o gato feito gente. Em verdade devemos mudar sempre. Eu mesmo tento me transformar. Embora por vezes não consiga.

 

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