Admiro o estoicismo do homem do campo.
A sua valentia, a sua resignação, o seu apego às coisas singelas, o seu comportamento exemplar frente às atribulações.
Um dia, os anos já se perderam em dias, meu amigo, um retireiro, por mim apelidado de Custódio Noticia Ruim, pois as boas ele sonegava, ao chegar a minha rocinha encantada deparei-me com uma cena que me levou ao desespero.
Seu filhinho mais novo, de nome Claudemir, aos dois aninhos completos, aprendendo a andar, num dia chuvoso, chão barrento, acabou escorregando na borda de uma represa, deu com a carinha dentro d’água e foi ao fundo.
O pobrezinho morreu afogado naquele pequeno laguinho. E eu, afogueado, ao constatar a morte prematura tive um acesso de raiva incontida.
Interpelei meu amigo Custódio com as seguintes palavras: “Custódio. Como deixou isso acontecer? Foi um lamentável descuido”.
E ele com os olhos marejados de lágrimas a mim respondeu: “foi Deus que quis assim”.
Enfeitamos o caixãozinho branco com flores do campo. E eu mesmo, sem acompanhantes, levei o anjinho à cidade, e cuidei do seu sepultamento.
Desde então passei dias e horas a pensar na razão pela qual pessoas singelas como elas a não se lamuriarem frente a situações inusitadas. Eles não fazem tempestades em copos d’água como nós nos acostumamos a fazer.
Daí o meu apego à boa gente da roça.
Com eles aprendo a melhor época para o plantio. Quando a égua vai dar cio. Por que a vaca recém-parida esconde a cria. E quando vai chover.
No entanto ainda não aprendi a me conter frente às intempéries da vida. Confesso, que nestes setenta anos de vida me tornei menos intempestivo. Mais comedido, menos voluptuoso.
Mas ainda não cheguei ao estágio dos meus amigos da roça.
Um deles, por mim alcunhado de Geraldinho da dona Nega, por quem tenho o maior apreço, ainda faço catiras com aquela pessoa boa, quase sem defeitos a não ser me passar manta, um dia, depois de uma chuvarada de fazer transbordar ribeiros, quando fui procurá-lo em sua casa, procurei por toda parte e não o encontrei.
Quando já estava quase desistindo ouvi uma vozinha fanha nas bandas do curral.
Foi aí que me deparei com ele.
Geraldinho estava agachado aos pés da vaca. Tirando leite com quatro dedos apenas. Da mão direita.
Com a aparência cansada, depois de uma noite mal dormida, ele me contou o acidente acontecido de véspera.
Na parte da tarde, na segunda ordenha, uma das vacas deitou sobre sua mão direita. Foi um estalo a ser ouvido a léguas de distância.
O dedo polegar dobrou-se sobre si mesmo. Foi uma fratura a ser tratada num hospital. Mas quem disse que aquele homem trabalhador poderia se dar ao luxo de ir pra cidade. A lida do campo não tinha hora de terminar. Enfaixou o dedo quebrado com uma atadura improvisada. E passou a noite inteira sem resmungar.
Proseamos a prosa incontida. Falamos do preço do leite. Da roça de milho em ponto de ser colhida. Comentamos inclusive sobre a tal pandemia. Falamos de tudo um pouco. Inclusive das agruras da vida.
Antes de nos despedirmos, naquela tarde com sabor de milho verde cozido, de doce de leite com queijo de minas, ainda escutei da boca do amigo Geraldinho estas sonoras palavras que me fizeram pensar nas circunstâncias de viver com qualidade plena.
“Quer saber, meu bom doutor. Tudo que a gente passa, todas as atribulações, todas as dificuldades que se interpõem em nosso caminho pra mim não passam de marolinhas”.
Voltei à cidade um tanto mais confortável. Oxalá, um dia, consiga me espelhar no exemplo da boa gente da roça. Quem sabe assim serei mais feliz…