“Vai chover? Seu Zito”.

O céu há tempos veste a sua azulice costumeira.

O sol parece não descansar. No alto mostra seu hálito calorento. O amarelo ouro predomina. Nenhuminha nuvem cinzenta dá o ar de sua graça.

A chuva se despediu faz tempo. Contando os verões, despedindo-se a primavera, deixando atrás os invernos, nem bem o outono se foi, a tão ansiada chuva não derriçava há anos fecundos. Seu Zito, aquele senhor enrustido em anos, nascido e criado naquele lugar ermo, não se lembra de quando a chuva molhava a pastaria, descia em enxurradas pelos cantos do morro, fazendo o caminhão leiteiro atolar no barro grudento.

Ele amava os tempos molhados. Tinha pela poeira amarela, que lhe fazia mal às narinas, que amanheciam sempre entupidas, verdadeira ojeriza.

Quando tinha de ir à cidade, nos tempos de secume dos pastos, pegava carona no velho caminhão leiteiro. Ia sacolejante entre os latões de leite. Meio que mareado por tanta poeira.

E lá chegava tossindo de verdade. E contava as horas para voltar a sua rocinha encantada.

Naquele ano, considerado por muitos como trágico, tudo de ruim aconteceu.

Começou com uma seca danada. A seguir, já que era entressafra, o preço do leite arrefeceu.

E se não bastasse tanta porcaria ainda por cima a porcada não deu preço. O açougue pagava pela arrouba em pé menos da metade do ano passado. O que por certo dava um prejuízo danado. Mal dava para pagar as despesas com o milho ensacado.

Há cerca de quatro meses, se tanto, mais uma novidade mal vinda quase pôs tudo a perder.

Pairou pelo mundo afora uma tal doença esquisita. Uma gripezinha importada da China. Da qual não se sabia a causa. E como seria o desfecho.

Daí, neste ano complicado, com tudo para dar errado, Seu Zito não sabia o que fazer. Se corria o bicho pegava. Se ficava deitado era mais um desassossego. O dinheiro mal dava para as despesas. A renda ia ribanceira abaixo.

E a seca continuava renitente. A roça de milho não granou. A tal pandemia fazia da boa gente brasileira de gato e sapato. E começou a faltar recursos para o governo pagar o tal auxilio emergencial. E foi recomendado o isolamento. Que as pessoas ficassem em casa. Como se fosse possível a um pai de família, com muitas bocas a tratar, ficar sem trabalhar.

E a tão esperada chuva não vinha. O céu se tintava de azul. O sol teimava em esquentar.

O desconsolado Seu Zito não sabia mais o que fazer. Tentou a dança da chuva. Convocou um pajé desconhecido. E ele cobrou os quintos dos infernos. E nada de a tal chuva despencar.

Foi no sábado passado, neste agosto atravessado, quando passei por ele.

O pobrezinho estava assentado nos calcanhares. Fumava um paiero apagado.

Tentei entabular uma prosa. Quase que foi um monólogo da minha parte.

Mais falei eu do que escutei.

“Seu Zito. Parece que vai chover. Quando vim para este lugar pensei ter visto algumas nuvens cinzentas. E ventava do lado de lá. Quando será que vai chover? Por certo não tardará”.

Foi quando dele escutei essas derradeiras palavras. Quase um grunhido.

“Quando setembro vier”.

“Neste próximo”? Interpelei-o mansamente. Sem querer incomodar.

“Não! Daqui a dez anos. Se Deus não quiser”.

Voltei à cidade debaixo de uma chuvarada danada. Pensando na alegria estampada na face sulcada do amigo Zito. Desta vez ele estava errado. E Deus não se furtou a ajudar.

 

 

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