Aquela família, composta de pai, dois filhos, mãe, sempre viveu confortavelmente.
O pai, profissional liberal, ganhava o suficiente para manter um lar bem estruturado, numa casa ampla, com todas as comodidades de uma vida sem problemas.
A mãe, dedicada a prole, ainda ajudava nas despesas.
Fazia doces que eram vendidos a uma freguesia imensa.
Já os filhos, um casal, eram filhos cangurus. Viviam às expensas dos pais.
Já bem crescidinhos, cada um no seu canto, viviam às turras. E relutavam em deixar a própria morada. Já que nem estudaram, nem nem trabalhavam. Eram exemplos bem ilustrativos da geração Nem Nem.
Ambos já colecionavam em seus currículos apenas tentativas. Tentaram estudar. E não passaram do segundo grau. Tentaram trabalhar. E ficaram na vontade.
Aos vinte anos o mais velho, um belo rapaz, passava o dia inteiro plugado à internet.
Vivia em seu quarto. E dali só saia à hora das refeições.
Já a mocinha, um linda rapariga, passava o dia inteiro enfeitando-se com esmero.
Ambos não tinham namorados. Sentiam-se realizados naquela vidinha confortavelmente macia. E não tinham pretensão de ir mais longe.
O tempo passava. E a dupla se esmerava em nada fazer.
A hora do almoço era um eterna discussão.
O pai, bom sujeito, até que se esforçava em mudar o estado de coisas. Aconselhava os filhos.
Dizia, em alto e bom tom: “filhos. A gente não vai durar para sempre. Cuidem de arranjar alguma ocupação. Vocês já estão bem crescidos. É hora de mudanças. Estudem. O trabalho só dignifica o homem”.
No entanto aqueles dois não tomavam jeito. Ouviam as recomendações do pai. Por vezes argumentavam. Na maioria das vezes se calavam.
Um dia fui fazer-lhes uma visita. Acontece que a mãe teve uma crise renal.
Cheguei a hora do almoço. A mesa estava posta.
O pai, como de costume, tocava no mesmo assunto. Era hora de se emanciparem. De saírem de casa. De votarem a trabalhar.
Já os dois, naqueles tempos maiores de idade, argumentavam que iriam pensar no assunto.
De antemão já sabia eu que nada mudaria na vida daquela gente.
Mas a discussão persistia.
A mãe, pobre coitada, ficava a seu canto. Emudecia.
Já o pai, vendo que tudo que recomendava não surtiria efeito, mais uma vez lastimava.
Os filhos deixavam a mesa contrariados. Cada um rumava ao seu quarto.
Sempre com um sorriso de lagarto a enfeitar-lhe os lábios.
Acabei assentando-me à mesa. Depois de ouvir as admoestações de ambas as partes.
Dali saí pensando na vida. E que vida seria aquela? Uma eterna harmonia da discórdia.