Não sou de sonhar muito. Pesadelos, então, não me lembro de tê-los.
No máximo um sonhozinho infantil, de quando fui menino. Na linda Boa Esperanca de antão, lugar que me viu nascer. Onde passei os primeiros cinco anos da minha vidinha então no começo.
Logo depois vim ter a esta cidade. A qual considero meu berço. Foi aqui que aprendi a amar a família. Não apenas aquela que me permitiu ver o mundo por estes olhos enxergadores. Assim como a segunda. A qual elegi por minha própria opção.
Nesta noite de domingo, fria, de inverno, apenas em seu começo, tive uma revoada de sonhos.
Sonhei um sonho meio arrevesado. Estava eu naquela casa, da Rua Costa Pereira, onde hoje existe o edifício Rodartino Rodarte, naquela sala ampla, onde costumávamos a nos reunir, junto aos nossos pais e avós. Alguns primos Rodartes perfilavam juntos naquela tarde de domingo.
Era uma casa aconchegante. Quatro quartos faziam parte daquela morada única. Um, na parte da frente, outro logo intimamente ligado à sala, dois na parte de trás. Um deles, justamente o mais amplo, pertenciam aos meus saudosos avós.
Um espaçoso banheiro fazia parte daquela edificação. Uma sala de jantar ancha, com uma grande mesa a nos receber prazerosamente a hora do café da tarde, era ali que minha querida avozinho Belica nos presenteava com apetitosos bolinhos de chuva, e outras iguarias das quais nem me lembro mais.
A cozinha era outra peça que não podia faltar. Um fogão a lenha que não vomitava fumaça de vez em quando fumegava.
A cozinha dava para uma horta linda. Alguns quartinhos ali existiam. Num dele morava uma máquina de costura. E, ao fundo, um pé de jabuticaba se enchia de frutinhas doces duas vezes ao ano. Meu avô irrigava o pé de jabuticaba com uma mangueira atada a um tanque perto daquela arvorezinha que o tempo levou.
Na parte da frente havia outra edificação. Era ali que morava minha tia Cida. E seu prestimoso marido, Walbert Catermol Werner, radioamador por vocação.
Na parte de baixo desta aprazível morada foi o cartório do meu avô. Segundo me dizem as lembranças minha querida mãe trabalhou junto dele. Não me lembro. Pois eu ainda não havia nascido.
Neste sonho de ontem a noite estávamos na sala de visitas.
Minha avó contava fatos do nosso passado. A tudo ouvíamos com ouvidos atentos. Nada de televisão.
Duas tias estavam presentes. Minha mãe me segurava no colo. E eu, intempestivo e açodado, não parava quieto.
Lembrei-me que um primo estava presente. Segundo me consta seria o primo Pedro. Aquele de saudosas lembranças. Que num passado perto foi chamado a trabalhar junto de Deus.
Meu avô Rodartino nos fazia companhia. Com aquele terninho azul listrado de riscas de giz. Usando seu indefectível suspensório.
Eu queria sair. Mas não permitiram. Permanecia na sala fingindo que ouvia aquela história.
Ela versava sobre as rosas amarelas que minha avó plantava no jardim defronte aquela casa.
As rosas não choram. Elas sorriem o perfume das rosas.
E eu chorava. Irrequieto gostaria de brincar com as rosas. Naquele jardim suspenso se podia ver toda aquela rua. Que ainda era de terra batida. Depois, sobre ela, fincaram os paralelepípedos. Hoje sobreveio o asfalto.
Na noite de ontem, de domingo para segunda, tive uma noite povoada de sonhos.
Pena que foram apenas sonhos. Que o passado levou. Tomara, algum dia, volte a sonhar de novo. E como foram bons aqueles verdes anos…