Quantas e quantas vezes, durante a vida que tenho passado, vi-me numa encruzilhada, sem saber por que lado ir.
De repente, acudiu-me o pensamento, e decidi ir por este caminho, que, felizmente foi a decisão acertada.
Mas nem sempre a escolha foi minha. Baseei-me nos conselhos dos mais velhos. Foram eles, principalmente meus pais, que me ensinaram o caminho certo a seguir.
Cresci aprendendo que errando é que se aprende. Equivoquei-me sim. Muitas vezes.
Mas a vida me ensinou a não ser tão exigente comigo mesmo. Aprendi a tolerar meus senões.
E, com o passar dos anos acabei me tornando uma pessoa melhor. Isso só se aprende com os anos.
E como o tempo passa depressa. Quando nos vemos no espelho não mais temos vinte anos. A infância se foi ao longe. A velhice nos cavalga as costas. E a vida se torna um fardo pesado demais aos nossos ombros recurvados sobre nós mesmos.
Ontem foi o aniversário de quatro aninhos do meu primeiro neto. Theo menino desembrulhava os presentes um a um. Cada um era uma novidade. E ele se esbaldava entre tantos embrulhos coloridos. Embevecido naquela festinha feita apenas para receber os amiguinhos mais chegados.
Num dia destes, parece que foi ontem, se não me falta a memória, apareceu aqui, no meu consultório, um rapazola todo envergonhado.
Foi preciso paciência para tirar dele o motivo da consulta. Ele adentrou a minha sala solitário.
Do lado de fora o esperava uma senhora. Ela gostaria de estar junto. Mas o jovem pediu-me, encarecidamente, que gostaria de estar só comigo.
Depois de instantes vazios ele começou os seus queixumes. Olhos fixos no recosto da cadeira, mal me olhava nos olhos.
Seu nome era Aristeu. O sobre não consegui identificar. Era de ascendência estrangeira. Negro como a asa da graúna. Falava um espanholes carregado de sotaque.
Com alguns minutos descobri que ele era de um país da América Central. Nicarágua, me parecia a princípio.
Uma vez que nos fizemos confidentes, quase próximos, ele começou a sua cantilena.
“Doutor, não sei o que faço. Estou aqui recomendado por um amigo. Há tempos estou neste país estranho. Aqui não tenho conhecidos muito menos aparentados. De tempos pra cá me descobri apaixonado por um colega. Do mesmo sexo que o meu. A princípio avexado. Isso nunca me aconteceu antes. Era hetero. Isso me parecia evidente. No entanto, depois que conheci o Aroldo, com aqueles modos refinados, caí de amores por ele. Até hoje não me declarei. Trata-se de um amor platônico. Olhos nos olhos apenas. Não vejo a hora de estar em seus braços”.
Depois de escutar calmamente suas confidências, e ver nele toda a verdade nelas escondidas, depois de examiná-lo noutra sala, não tive como não encorajá-lo a tomar atitude.
Enfim, ao final da consulta, já mais aliviado por ver em mim um amigo, Aristeu afirmou categoricamente: “ antes não sabia o que fazer. Já agora, mais seguro de mim, vou me declarar ao Aroldo”.
Não sei se fiz bem. Ou mal. Como médico especialista em Urologia cabe a mim desvendar as desventuras do sexo.