Não sei pra onde vou

Quantas vezes a indecisão tomou conta do meu caminho.

Se vou pela direita. Se pela mão esquerda. Ou sigo reto.

Creio, dentro da minha descrença, que na maior parte das vezes acabei seguindo pela contramão.

Felizmente ainda não foi daquela vez que prossegui pelo caminho errado. Mas, se caio no logro, e percebo a tempo, tento corrigir meu erro. Aprendi, com o passar dos anos, que errando é que se aprende. E o arrependimento é sinal de que ainda pensamos.

Naqueles tempos idos, anos se vão, ainda jovem criança, antes de me enveredar pela medicina, acreditava que um dia seria adulto. Adulto me tornei. Ultrapassei a barreira dos vinte anos. Afinal era hora de me tornar gente grande. Foi quando deparei-me com o vestibular.

Foram tempos difíceis aqueles. Apartado de casa. Longe do abraço, do fraternal enlace dos meus pais.

No entanto não experimentei a solidão longe de casa. Tive a companhia de três amigos. Com eles estabeleci um agradável convívio.

Morávamos num prédio alto na capital mineira. O Edifício Duque de Caxias existe até hoje. Contemplando por suas janelas o aprazível Parque Municipal.

Dali até a escola de medicina era um caminho curto. Foi então que tomei gosto pelas caminhadas.

Do meu apartamento até aquela escola de boa fama não gastava mais de alguns minutos. E quase não usava meu carrinho dado de presente por meu saudoso pai. Era um fusquinha todo incrementado. Rodas de tala larga. Bancos de couro puro.

Ainda me lembro, quanto tempo faz, quando dava plantão num hospital, acordei sentindo-lhe a falta. Ele fora afanado por alguns meliantes. E foi encontrado todo depenado num logradouro distante. Gastei tempos idos para equipá-lo novamente. Aquele foi meu primeiro automóvel. Depois seguiram outros. Nunca aprecei carros durante minha vida. Prefiro as caminhadas à azáfama do trânsito maluco que agora faz parte das cidades.

Foram quase oito anos naquela vida de estudante de medicina. Depois passei tempos no exterior. Aqui aportei novamente, nesta cidade que amo tanto, no distante ano um mil novecentos e setenta e sete. Foi quando teve início minha vida de urologista. Que ainda persiste até hoje. E espero que dure muitos anos mais.

Antes não sabia por onde ia. Ficava numa das encruzilhadas da vida. Já hoje, tempos mudados, em parte minha indecisão se desfez.

Mas não de todo. Por vezes, quando acordo, sempre cedo, como no dia de hoje, dia nublado, um tanto frio, uma dúvida continua a me atormentar.

Até quando vai durar esta pandemia. Até quando vamos viver nesta indecisão.

Se ainda devemos ficar confinados. Amoitados dentro de casa. Como vacas depois de paridas. Ou se poderemos sair às ruas sem máscaras a encobrimo-nos a verdadeira identidade.

Até quando persistiremos nestas idas e vindas. Até quando as autoridades de saúde aconselhar-nos-ão prudência. Até quando as lojas deverão ficar de portas fechadas?  Neste abre e fecha que só nos causa confusão?

Até quando iremos assistir pela mídia sedenta de sangue apenas notícias ruins?

Estamos em pleno meio do ano. Julho logo fecha os olhos. E a tal virose continua no seu caminho destruidor de vidas.

Neste exato momento não sei para onde vou. Se paro. Se continuo. Se persisto nesta dúvida que me assalta.

Antes as dúvidas eram facilmente sanadas. Já hoje não sei qual atitude tomar.

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