Desde quando o conheço, e fazem mais anos do que os tenho, um tanto exagero, aquele senhor, ex-retireiro, carpinador de enxada, um faz tudo, um nada, sempre o encontro assentado aos seus calcanhares gastos, naquela pedra, do lado direito da estrada.
Zé, de sobrenome da Silva Qualquer, sempre morou na roça. Em sua longa estrada da vida quase nunca dali moveu os calcanhares. E que par de pés ele tinha. Era quase uma lixa gasta. Faltavam-lhe dois dedos. O pé direito quase nem se parecia um pé. Era um artefato feito para caminhar. Com a sola gasta. Mais dura e resistente que um casco de tatu bola. Do lado esquerdo, aquele onde faltavam dois dedos, justamente o minguinho e o fura-bolo, as unhas já se foram fazia anos. Mas aqueles pequenos defeitos em nada importunavam o meu amigo. Era tão bom com a enxada como com a enxó.
Seu Zé quase não tinha defeitos. Uma vez lhe perguntei, numa tarde de sábado, qual seria o seu maior predicado. Já que defeitos ele não tinha. Foi quando ele me respondeu, com aquela alegria de sempre: “quer saber? Meu maior defeito é a tal bondade pura”. E eu acreditei.
Em verdade Seu Zé era amado por todos que o conheciam. Até seu maior inimigo lhe queria bem.
Assim acontecia com a gente sempre que me cruzava com ele.
Foi no final de semana passado, era mês de julho, quase em sua metade, lá se ia mais um ano, em boa hora, quando senti a sua ausência.
Seu Zé não estava naquele lugar costumeiro. A tal pedra dura, como sua cabeça, estava vazia.
Não tinha ninguém a quem perguntar por ele. Passei aquela semana agoniado.
Perfilaram-se dois meses. E nada de ver de novo o amigo sumido.
Foi quando me recordei o quanto o amigo Zé gostava de passarinhos. Em sua casinha modesta existiam quase duas centenas deles. Num grande viveiro. Que ele mesmo fez. Com todo capricho.
Foi naquele final de semana, neste mês atrapalhado, acabei por parar a minha caminhoneta prateada a beira da estrada.
Adentrei pela velha porteira. Cães ladraram a minha entrada. Não me intimidei. Dizem que cães que ladram não mordem. Enquanto ladram.
Seu Zé não estava por ali. Procurei por todas as partes. Fiz-me anunciar ao seu filho. Cláudio, cego dos dois olhos, tateava tentando encontrar a vaca recém-parida.
Já o conhecia de longa data. Era um brincalhão, dono de um proverbial bom humor.
Perguntei onde estava seu pai. Há tempos não o via.
Cláudio, sorrindo a banguelice desdentada, entre dentes, que não tinha, falou que o pai estava tratando de um canário.
Estranhei a sua ausência. E que canário seria este? Já que todos estavam bem vivos e cantarolantes, dentro daquele enorme viveiro.
Cláudio, com a mesma alegria de sempre, explicou-me, pausadamente: “meu pai, na semana passada, acordou durante a noite com uma dor de dente de saltar da cama. E foi levado ao dentista”.
E qual foi o diagnóstico responsável pela dor de dente? Inquiri eu.
Foi-lhe obturado um “canário”. Em dois dentes de trás e um da frente.
Foi a primeira vez que escutei um canal de dente cantar. Depois daquele dia passei a caçoar do amigo Zé. E ele passou a rir da minha descrença.