Nem bem o relógio assinalava cinco horas da manhã Antenor já se punha de pé.
Era quase madrugada. O frio enregelava até os ossos. Um vento seco assobiava por detrás da mata.
Naquela quinta-feira de outono, precisamente dezoito de junho, não se via vivalma por aquelas bandas.
Era um lugarejo escondido no alto da serra. Quase um povoado. Contava-se nos dedos quantas pessoas viviam por ali. No máximo, segundo as estatísticas, falhas na maior parte das vezes, menos de duzentos indivíduos, a maior parte idosos.
Seu Antenor era um madrugão costumeiro. Dormia com as galinhas. Acordava ao cantar do galo.
Aos setenta e cinco anos, pareciam menos, acostumado ao trabalho duro, nunca relutou em acordar cedo: “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Dizia ele. E de fato. Até aquela altura de sua vidinha modesta não tinha do que se queixar.
Avô de três netinhos adoráveis. Enviuvara cedo. Com três filhos na barra das suas calças era o responsável por aquela família. Filhos cangurus. Que se aproveitavam da disposição do pai. Verdadeiro esteio. Que carregava nos ombros fortes três rapagões enormes. Que viviam de bar em bar.
Ainda cedo Seu Antenor saía para o trabalho. Era carpinteiro de mancheia. Entalhava a madeira com rara habilidade.
Fabricava móveis de todos os tipos. Tinha uma enorme freguesia. Que ia além das fronteiras daquele lugarejo perdido por detrás dos montes.
Seu Antenor, antes da cinco da manhã, já estava em sua fabriqueta de fundo de quintal. Era um barracão modesto. Ali fabricava camas, criados mudos, que de tão perfeitos parece que falavam, além de cadeiras acolchoadas que eram disputadas por lojas de grife.
Vivia para o trabalho. A melhor hora do dia era quando chegava a casa. Fazia diabruras com os três netinhos. Era ele quem cuidava daqueles pimpolhos sempre alegres. Pois os pais viviam na rua. Separados das mães dos seus filhos.
Ainda cedo Seu Antenor saía em direção a sua pequena fábrica. Ali passava horas e horas. Perdido em seus pensamentos.
Seu Antenor tinha mãos ásperas e coração amanteigado. Dono de uma sensibilidade de artista. Era considerado por todos que o conheciam verdadeiro mestre em sua arte.
Acontece, pois nem tudo são flores, existem espinhos, um dia Seu Antenor adoeceu.
Caiu de cama. E não mais se levantou. Foi-lhe diagnosticada uma enfermidade incapacitante. E perdeu todos os movimentos das mãos.
Impossibilitado ao trabalho, sem a mesma destreza de dantes, Seu Antenor caiu em depressão.
Entrou numa estado lastimável. Evitava a companhia de outrem. Em casa começou a faltar de tudo um pouco. Já que os filhos não trabalhavam.
Seu Antenor viu a felicidade esvair-se pouco a pouco. Uma tristeza profunda acabou tomando conta daquele homem bom.
Antes de completar setenta e seis anos Seu Antenor fechou os olhos. Foi encontrado morto por um dos seus netos.
Ainda cedo partiu aos céus. Dizem, nos arrabaldes, que lá do alto Seu Antenor ainda fabrica aqueles móveis perfeitos.
Mesmo que imperfeita seja a vida. Com seus altos e baixos. Com suas idas e vindas.
Tudo isso para exemplificar o que penso. Devemos viver a vida como se ela não tivesse fim. Embora o final seja conhecido. Mais cedo ou mais tarde. Melhor tarde do que cedo.