Que dia feio amanheceu naquela quarta-feira do mês de junho.
Céu cinzento. Ventoso. Nenhum sinal de que o sol iria sair.
A temperatura oscilava entre dez e onze graus positivos. No entanto a sensação térmica indicava muito menos.
A geada cobria a pastaria. Uma cerração densa encobria tudo ao derredor. Mal se via a um palmo do nariz.
Foi nesta manhã que o destemido Quinzinho deixou a cama. Era mais ou menos cinco horas da madrugada. Parecia que iria chover no decorrer do dia. Pelo menos esta era a previsão da meteorologia.
Naquela manhã gelada Quinzinho completaria seus trinta e dois anos. Entretanto pareciam muitos mais.
Cabelos embranquecidos. Já faltosos no alto. Pele morena com sulcos profundos ao redor dos olhos. Magricela como uma seriema pernalta.
Naquela manhã de outono, mais parecida com inverno, o nosso herói acordou com um estranho pressentimento. Sonhou que iria chover. Embora não fosse época de chuva.
Tomou um cafezinho requentado na trempe do fogão a lenha. Um pão amanhecido cheirava a mofo. Nem manteiga tinha para passar naquele resto de pão.
Deixou a casa em direção ao curral. A cerração mal lhe permitia ver onde estavam as vacas.
Encontrou-as num atoleiro perto. Foi preciso ajuda de um vizinho de pasto para desatolar uma delas. A pobre estava apenas com os chifres de fora daquela lama viscosa.
A hora da ordenha já estava atrasada. Começou a espremer as tetas das vacas antes das sete da manhã. Faltava energia naquela manhã. A luz fora cortada por falta de pagamento. E tudo ficou às escuras.
Mesmo assim o valente Quinzinho não desanimou. Tomado de uma força desconhecida recomeçou o trabalho do dia. Eram tantas as tarefas que quase não se lembrava de todas elas.
Tinha de roçar a pastaria. Tratar da porcada faminta. Esperar o caminhão leiteiro que deveria chegar antes das oito horas. E já estava atrasado quando o velho caminhão buzinou no alto do morro.
Naquela manhã de quarta a estrada estava intransitável. Daí a necessidade de levar o leite lá em cima. Eram três latões cheios até as beiradas. À força dos braços seria missão impossível. Por este motivo atrelou o cavalo eunuco à velha carroça. Foi quando notou que a mesma estava com os pneus murchos. O trator estropiado descansava obsoleto numa garagem improvisada numa tulha de milho.
Naquela manhã azarenta toda a produção leiteira foi perdida. Era mais um prejuízo a ser contabilizado. Além da queda da produção o preço do leite despencou como as águas da enxurrada que descem o morro.
Mesmo assim Quinzinho continuou na lida.
Afinal eram mais de vinte anos de serviço naquela sua rocinha prejuizenta. Dali não tirou nenhum centavo. Só acumulou prejuízos em sua vidinha insossa.
Não bastassem tantos percalços antes da hora do almoço percebeu que faltou gás na cozinha. Não havia como fazer a comida. Passou fome naquele dia.
Eis que chegou a noite. E acabou dormindo com a barriga vazia.
No dia seguinte foi a mesma ladainha. A melhor vaca do curral amanheceu com as tetas inflamadas. Acabou perdendo o mojo. Pelo fato de estar magra foi vendida por um preço irrisório. E acabou recebendo por ela um cheque sem fundos.
Mesmo assim, sujeito a altos e baixos, a chuvas e trovoadas, Quinzinho não desanimava. Continuava firme no seu metier.
Sem me alongar muito na história, podem pensar que foi invencionice minha, no dia seguinte a tantas tribulações, aconteceu mais uma novidade.
Quinzinho amanheceu febril. Uma tossezinha irritante começou na tarde de ontem. Faltou-lhe a respiração.
Ele foi internado diagnosticado com coronavirus. E, por falta de vagas no hospital foi isolado numa UPA qualquer. Pouco durou a vida deste meu amigo. Quinzinho veio a falecer aos trinta e cinco anos.
No seu atestado de óbito consta, como causa mortis, além da tal virose, uma frase que bem ilustra a nossa atual situação: “desgraça pouca é bobagem”.