” Ai, meu Santo Antônio!!!”

Causos e loisas e coisas me têm passado pelo consultório.

Histórias de gente boa, velhos principalmente.

Aqueles advindos da roça são os melhores pacientes a quem tenho atendido, nestes mais de quarenta anos de profissão.

Nada contra os jovens. As queixas deles são inerentes ao desempenho na cama. Principalmente nestes tempos de pandemia, quando as preocupações nos afligem, os tormentos fazem-nos parte da vida, a crise se manifesta em seus distintos matizes.

De vez em quando aparece algum deles preocupado com a doença que se manifestou depois de uma relação desprotegida.

Crianças as tenho em menor quantidade. São as mães as acompanhantes. Sempre desassossegadas com o pequenino problema naquele órgão a princípio para expelir urina. Geralmente devido uma fimose mal cuidada.

Já os adultos aqui comparecem, depois dos quarenta e cinco anos, na intenção de examinar a próstata. Ou devido à falha naquela hora ingrata quando a parceira se queixa da falta de ereção competente. Geralmente eles se satisfazem com uma breve conversa. Ou com a receita daquelas pílulas que fazem milagre. Se não a solução passa pela prótese peniana.

Já o velho, ai que bom quando um deles aqui aparece, geralmente titubeante, com a audição capenga, trazidos por uma neta formosa, ou por uma filha mais nova, assenta-se a cadeira defronte a minha, e deixa os queixumes a cargo do acompanhante.

Um dia deste, se não me falha a lembrança foi na semana passada, quando aqui apareceu um consultante, de nome Seu Benedito.

Ele veio com uma filha e um filho oriundo de uma cidade próxima.

Surdo como uma porteira emperrada, manco como um cavalo em final de expediente, Seu Benedito aqui apareceu com uma expressão de puro sofrimento.

Era por volta das quatro da tarde.

Antes de explicar o motivo da consulta é bom deixar a todos a diferença entre a Urologia e a sua quase parenta a Proctologia.

A primeira trata das doenças inerentes a próstata e vias urinárias. Por ser a glândula prostática examinada pela via retal muitas vezes ela é confundida com a proctologia. Que trata das hemorroidas e doenças do intestino. Daí a confusão que as duas especialidades trazem.

No caso do Seu Benedito foi mais ou menos assim.

Quando ele aqui chegou recusou-se a assentar-se. Uma dor doída instalara-se em seu ânus desde outro dia.

Tudo aconteceu depois que sua digníssima esposa ofereceu-lhe um franguinho caipira. Ele roeu até os ossinhos miúdos. Já que era a sua iguaria preferida.

A seguir, se não me falha o pensamento, o pobre homem amanheceu com uma sensação estranha em seu canal anal. Parecia que estava entupido por um corpo estranho.

Ele nunca se queixou de nenhuma coisa semelhante. Seus hábitos intestinais eram absolutamente normais.

Foi quando o levei a sala de exame. Coloquei-o naquela posição incômoda.

Pelo dedo enluvado percebi alguma coisa a perfurar-lhe a ampola retal.

Sem grandes dificuldades dali retirei um ossinho de galinha. Era o tal Santo Antônio, quebrado ao meio.

Depois de alguns instantes, de ter repetido o procedimento não sei quantas vezes, Seu Benedito saiu aliviado. Não sentindo mais dores. Com um largo sorriso no rosto sulcado pelos anos.

Antes de nos despedirmos ainda me lembro da expressão usada por ele: “ai meu Santo Antônio. Que bom que o senhor saiu quase inteiro”.

E aquele Santo Antônio da galinha não era o santo casamenteiro.

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