Um São João diferente

Ainda não fazia frio naquele começo de junho.

Céu azul, sol a brilhar, nenhum sinal de que iria chover.

Ao revés. O secume da pastaria, a poeira que manchava tudo de amarelo, a vacada emagrecida, tudo levava a crer que seria uma estiagem severa.

Joãozinho acordou desolado naquele quinze de junho. O que mais gostava era o foguetório das festas juninas. No pátio da escola, que desta vez estava entregue às moscas, vazio, já que as aulas não tinham época para recomeço, costumava-se fazer uma enorme fogueira.

Balões coloridos enfeitavam o ambiente festivo. Professoras vestidas a caráter, alunos usando botinas gomeiras, na cabeça enormes chapéus de palha, ensejavam dias festivos.

No entanto, naquele inverno que nem começara, nada disso aconteceria. Por causa da tal doença esquisita todos deveriam ficar em casa. Para evitar a contaminação pelo tal vírus.

Daí o desconsolo de Joãozinho.

Há quase três meses tudo fedia a isolamento. Naquela rocinha encantada nada mudou. As tarefas continuavam as mesmas. O trabalho mal percebia o que estava acontecendo nas cidades.

Ali, naquele rincão perdido no meio do nada, não havia notícias de nenhum aparentado contaminado com o tal coronavirus. Ao contrário. As pessoas que ali viviam tinham saúde a dar e vender. O ar era puro como a alma dos moradores.

Quase junho chegando à metade nem havia sinal de festas naquelas paragens. Todos se mantinham isolados. Impedidos inclusive de entrarem na cidade.

Joãozinho, acostumado às festas juninas, a estourar balões, pular fogueiras, comer pipoca com canjiquinha, se viu de repente, subitamente desconsolado.

Aquele ano estava em verdade diferente. Pessoas não usavam se cumprimentar. Mal se davam as mãos. Alguns usavam máscaras. Segundo as orientações das autoridades.

Mas o irrequieto menino não se conteve. Construiu ele mesmo uma enorme fogueira no terreiro da própria casa. Convidou os amigos. Preparou os balões coloridos.

Enfeitou o cavalo baio como se fosse o noivo daquela festa junina. E a melhor vaca do curral como se fosse a noiva.

Chegou enfim a noite da festa improvisada. Deu oito horas e nada de aparecer nenhum conviva.

O relógio marcou mais uma hora e mais uma vez a desilusão se mostrou aos olhinhos tristonhos do menino.

Apenas a galinha carijó, acompanhada do marido garnisé, foram chegando de mansinho. Uma hora depois o porquinho, por quem Joaozinho nutria grande amizade, aconchegou-se ao menino. A seguir foi a vez dos canarinhos da terra. Foram eles quem alegraram a bicharada. Com suas cantorias bem trinadas.

Os bezerrinhos foram chegando devagarinho. Sob os olhares cúmplices de suas mães vacas.

Não faltou a serenata das maritacas. Nem mesmo a correria das seriemas pernaltas.

Foi em verdade uma festa diferente. A fogueira acendeu-se parcialmente.

Tudo terminou antes da meia noite. As vacas recolheram-se ao pasto. As galinhas empoleiraram-se antes da festa terminar.

Na manhã seguinte todos acordaram felizes da vida. Se faltaram os convidados humanos o mesmo não aconteceu aos outros ditos irracionais.

 

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