Sempre tive grandes dificuldades à hora de presentear.
Primeiro aos filhos. Já bem crescidinhos. Aos netos seria mais fácil. Um carrinho de controle remoto, um caminhãozinho da moda, até mesmo dedicar a eles horas e horas intermináveis fazendo de conta que sou das suas idades.
Dar presentes me parece coisa do passado. Principalmente a quem já tem de tudo.
Quando criança, menino ainda, quando ainda cria em Papai Noel, não via a hora de desembrulhar os presentes espalhados debaixo da árvore de Natal.
Acordava ainda madrugada. Fingia que ainda dormia. Embora prometesse aos meus pais não acordaria tão cedo, em boa hora lá estava eu, na sala principal, lendo de quem seria este, qual seria o meu, e não tinha coragem de escrutinar outro embrulho que não me fosse endereçado. Caso fosse do meu irmão deixaria aquela caixa da mesma maneira que a deixaram.
E com que alegria atinava com aquela bicicletinha de rodinhas, promessa do Natal passado, que, caso fosse estudioso, por certo seria presenteado com ela mesma. E logo saia a bicicletear, embora ainda não soubesse pedalar.
Passaram-se outros natais. Eu cresci. Passei a ser o Papai Noel dos meus filhos.
Em meus desaniversarios ganhava outros presentes. Que não me saíram até hoje dos pensamentos.
Pena que o tempo passa. E, a partir de certa idade, só ganhamos roupas em nossos cumpleanos.
Brinquedos passaram a ser apenas recordações de nossa infância.
Hoje, doze de junho, trata-se de uma data especial.
Dia de comemorações efusivas por todas as partes.
Ainda me lembro da primeira namorada. Fui com ela no cinema. Quando o filme terminou, alguém, por certo um príncipe encantado, acabou levando-a em seu cavalo branco. Logo imaginei que eu seria um simples batráquio.
Outras namoradas passaram-me pelo currículo. Mas nenhuma como ela. Conhecia-a no rela do jardim.
Se disser quantos anos se passaram podem dizer que já estou bastante gasto. Estamos juntos, contando o tempo de namoro, mais os anos tantos de casados, reconto quase cinquentanos.
Quase uma vida inteira. E espero continuar ao seu lado mais anos ainda. Tomara com saúde e clarividência.
Nossa convivência por vezes não tem sido fácil. É ela quem cuida das minhas exíguas finanças. Especialista em números. Já eu tenho verdadeira adoração pelas palavras.
Hoje teria de escolher o presente a dar a ela. Mas ela tem tudo. Roupas ela fabrica. Flores duram pouco. E ela tem o nome de uma delas.
Utensílios do lar ela tem aos montes. Em minha casa armários lotados não cabem mais nada. Enfeites ela mais parece um biscuit. E nem precisa se enfeitar tanto. Ela é bonita como uma rosa recém-desabrochada apesar de seus muitos anos.
Neste dia doze de junho, já que tenho de escolher um presente a dar a ela, que tal falar em gratidão. Em respeito e amor verdadeiro. Em consideração e admiração.
Temos uma longa vida em comum . Aprendemos a tolerar os nossos defeitos. A acreditar em nossos projetos juntos. A amar a nossa família. Como amamos a nós mesmos.
Já que tenho de escolher um presente a dar a ela não vou sair de loja em loja. Não irei comprar flores. Nem mesmo uma rosa amarela. Não irei presenteá-la com uma roupa qualquer. Nem mesmo com uma caixinha de bombons.
Neste dia doze de junho, por sinal lindo como ela sempre foi, receba, minha querida amada Rosa, esta crônica escrita agora. É o que desejo lhe dar. Com a promessa de cumplicidade eterna. Enquanto nossa existência perdurar.