“Pra quem nunca teve nada, o que é perder tudo”?

Aninha sempre foi uma garota esforçada.

Das três irmãs era a única que ajudava a mãe nas tarefas de casa.

Aos cinco anos já era bem crescidinha. Moreninha da cor do jambo maduro, cabelos crespos sem serem enroladas demais, pernas esguias, não muito finas, um narizinho meio achatado, da cor da mulata, que conferiam a meninazinha um ar de travessa.

Aninha cresceu naquela família trabalhadora. Era o xodó dos pais. Já que os outros irmãos viviam às turras com eles mesmos. Não se davam na escola. Já a comedida Aninha era tida pela vizinhança com uma menina de muitos predicados.

Estudou até a quinta série do primeiro grau. Era aluna acima da média. Na hora do recreio ajudava na faxina da escola. Desde então nunca mais se esqueceu da vassoura. Cresceu sendo uma pessoa sem defeitos.

Acontece, como o mundo dá voltas, quando a equilibrada mocinha completou seus dezesseis aninhos um acontecimento trágico abalou a família inteira.

O único irmão, varão, carapina de mancheia, que tinha o costume da bebida, acabou despencando de um telhado. Caiu de cabeça no chão duro. Em pouco tempo perdeu a identidade.

Restava-lhe o pai. Por quem tinha verdadeira adoração. Um dia, era outono, céu azul, foi diagnosticado em seu progenitor uma doença incurável. Em poucos meses Deus o chamou ao céu. Foi uma perda lastimável. Aninha chorou por meses a fio.

A irmã mais jovem, enfermeira competente, apesar de gênio emburrado, assim que foi pedida em casamento, por um jovem vindo do sul, caminhoneiro viajor, durante uma viagem acabou despencando de um despenhadeiro. Ambos morreram abraçadinhos. Um acidente trágico. Que enlutou a família inteira.

A vida continuava entre alegrias e tristezas para a pobre Aninha.

Acostumada ao trabalho duro, um dia empregou-se numa casa de família. E como amava as crianças logo angariou a si mesma o encargo de babá.

Passou anos e anos naquela função. Até que um dia, por faltar ao trabalho por justa causa, foi demitida.

Começou vida nova estudando enfermagem. E como era dedicada a nova função foi admitida no consultório de um médico especialista em urologia.

Foi a melhor aquisição daquele profissional de saúde. Nunca faltou ao trabalho. Chegava antes da hora. Caminhava sempre com aquelas pernas esguias.

Em alguns anos apenas conseguiu, graças ao próprio esforço, construir uma bela casa.

Foi quando se amasiou a um rapaz tido um bom vivant. Era a alegre Aninha, sempre com um sorriso a enfeitar-lhe os lábios, que supria as necessidades da casa.

Passaram-se anos. Meses de desdobraram.

Com o tempo a relação foi esfriando. Mesmo assim a boa Aninha tinha esperança de se casar. Mas nunca foi pedida em casamento. Filhos não teve. Não por intenção dela mesma.

A casa brilhava. Aninha, boa dona de casa, nunca deixou faltar nada em sua morada. Já o rapaz, por quem ainda tinha um amor verdadeiro, passou a destratá-la.

Mal dirigia e ela, boa conversadeira, qualquer palavra. Permanecia sempre de mal com a vida,

Até que um dia Aninha se cansou. Deixou a casa e foi morar com a mãe. Alegre como ela.

Levou consigo apenas os móveis que havia comprado. E a casa, edificada com tanto esforço, passou a ser propriedade do ex-namorado.

Um dia, ao passar por ela, depois de tomada a decisão, solitária a viver apenas na companhia da mãe, mesmo assim Aninha sorria. Era um sorrido com sabor de desilusão.

Depois de tantas perdas e danos, após a perda do pai e dos dois irmãos, mesmo assim a boa Aninha sorria.

Foi dela que ouvi, esta explicação: “quer saber? Pra quem nunca teve nada. O que significa perder tudo”?

Deixei-a sorrindo. Que isso nos sirva de lição. Mesmo a mercê da maior perda, outras conquistas virão.

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