Até parece que foi ontem

Como o tempo passa frenético. Até parece que ele avoa.

Ontem fazia vinte anos. Um dia destes entrava nos trinta.

A meninice se foi a tantos anos que perdi a conta. Quando ganhei de presente aquela bicicletinha de rodinhas amarelas nem me lembro mais. Ah!, Quase ia me esquecendo. Foi quando completei meus cinco anos.

Foi difícil me equilibrar naquele lindo presente sem as rodinhas. Cai, me levantei, sempre com a ajuda dela- de minha saudosa mãe.

Hoje, tantos anos depois, ela ainda se faz presente: não apenas nas fotografias. Por detrás de onde escrevo tenho uma dúzia delas. Como ainda me lembro de minha querida mãe na data de ontem. Sete de junho era dia do seu aniversário.  Se ela ainda estivesse viva estaria completando, pelas minhas contas, quase cem anos. Meu pai nos deixou antes de completar setenta e oito. Ainda jovem, considerando-se a idade que hoje conto. Pois ainda me sinto jovem nos meus setenta anos.

Parece que foi ontem que ela nos deixou.

Foi num dia de semana qualquer. Estava eu na Santa Casa. Creio que em meio a uma operação. Fui chamado, às pressas, àquela casa que no dia de hoje se mostra imersa em meio a uma densa cerração.

Num fiatizinho de cor azul escuro, carro que pertencia ao meu pai, parti do hospital rumo aquela casa numa fração de segundos. Quando ali cheguei, espavorido, encontrei minha querida mãe arfante. Faltava-lhe ar.

Acomodei-a no banco do passageiro. Ela, cambaleante, apoiada ao meu obro, disse-me: “Paulinho, será que minha hora chegou”?

Adentramos pela porta daquele hospital. Foi no centro cirúrgico que ela se despediu da vida. Todos os esforços para mantê-la respirando foram em vão. Foi o dia mais triste de minha existência. Creio que outros não se seguirão.

Até parece que foi ontem que eu e ela recapitulávamos as lições da escola. Professora que pouco tempo exerceu o seu metier. Dedicada à família, mãe exemplar, esposa companheira. Ainda me lembro enternecido de todos os seus predicados.

Quando meu pai adoeceu foi ela sua cuidadora. Naqueles tempos difíceis de sua enfermidade.

Até parece que foi ontem quando me recostava em seus braços. Ouvia seus conselhos. Ou tinha sua mão acarinhando minha face quando o momento impunha. Ou até mesmo me repreendendo quando necessário.

Parece que foi ontem quando comemorei o meu primeiro aniversário. Que lindo bolo ela fez. Ainda tenho guardada aquela velinha. Numa gaveta escondida entre meus guardados.

Até parece que foi ontem que ela me beijou a face. Quando não queria dormir foi ela quem me contou a primeira historinha. Mestra contadora de histórias da Carochinha.

Ainda me lembro, olhos rasos d’água, de quando ela trocava minhas fraldas sujas.

Algum tempo depois era ela mesma quem trocava os fraldões do meu pai.

Até parece que foi ontem que a tinha junto a mim. Foi exatamente ontem o dia do seu aniversário.

Saudades permanecem, lembranças ficam. Enraizadas dentro de gente. Sem que nada pudéssemos fazer para mudar aquela doce imagem. Intimamente ligada à ternura. Que minha querida mãe inspirava.

Até parece que foi ontem que a abracei. Naquele momento trágico quando a perdi.

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