Amo as manhãs bem cedo. Apraz-me despertar ao nascer do sol e o esconder da lua.
A noite não me seduz. Prefiro o clarume do dia à escuridão da noite.
Dizem que o velho dorme pouco. Talvez a razão seja bem singela. Já que lhe resta pouco tempo de vida por que passar oito horas seguidas na escuridão da noite?
A ele interessa o brilho do sol. A azulice do céu. O voo dos pássaros. O movimento de pessoas em seus ir e vir.
Dormir apenas o necessário. E o receio de não mais acordar? Tudo faz parte da vida dos de mais idade. Eu me incluo entre eles. Já que passei bem mais da metade do tempo que me resta. Daí a minha ojeriza pelas noites escuras. Por este motivo acordo cedo. Antes das seis já me ponho de pé. E aqui estou. A confabular com o teclado do meu computador. Nesta hora, quase madrugada, o prédio ainda se mostra vazio.
Um amigo da roça, que tem o mesmo costume que me assalta todos os dias, o de acordar cedo, já que o dia para ele começa antes das cinco, sempre me diz: “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Eu também penso assim.
Acostumei-me a dormir cedo. Antes das nove já me recosto ao travesseiro. Fico alguns minutos a espera que o sono venha. E se ele não vem permaneço ali mesmo. Desligo a televisão. Assisto a algum filme que me interessa. Desapego-me dos noticiários. São apenas notícias ruins.
Não tenho o costume de ler. Escrevo mais do que leio. Já tive o hábito de ler mais. Em criança minha mãe costumava ler historinhas pra mim. Já que ela se foi, infelizmente a leitura não mais faz parte de mim.
Eu e as madrugadas somos parceiros. Não sei se ela entende os meus anseios. Mas quando o sol nasce, as estrelas se escondem no firmamento, esta é a hora ideal para por em dia meus pensamentos. E eles vão longe. Para além do horizonte infinito.
Eu entendo as madrugadas. Não sei se elas me entendem. É quando me afasto deste mundo por vezes cruel. Já que estou só. Apenas eu e as madrugadas.
Uma vez em noites enluaradas, prestes a deixar a noite dormir, naquelas horas prematuras, em plena madrugada, divago, indago, por que sou assim.
Sou desse jeito sem explicação convincente. E não me convenço de que devo mudar. Também já vivi tanto. Mas pretendo viver muito mais.
Eu e as madrugadas nos entendemos perfeitamente. Como me entendia com minha querida mãe. Era só ela olhar em meus olhos e eu, sem pestanejar, entendia o seu recado. E tentava corrigir o mal feito. Sem ser preciso ficar de castigo.
Eu prefiro as madrugadas às noites escuras. São nelas que assisto ao farfalhar do vento. Ao nascimento do sol que se desprende por entre as nuvens.
Eu e as madrugadas somos solitários. Parceiros, quase meninos. Que o tempo levou.
Eu e as madrugadas nos preferimos. Cada um no seu canto. Embora não saiba cantar.
Um dia, quando a vida descontinuar, e eu tiver de partir, que seja durante as madrugadas.
Nesse dia irei calar meu computador. Só lhes peço para não chorar.