Quase quarenta anos se passaram.
E aquele menino, ingênuo, estudioso, nascido e crescido num lugar ermo e distante, sempre acalentou um sonho.
Zezinho morava na roça. Oriundo de pais nascidos naquele rincão perdido onde a seriema corre, altiva pelos campos, sempre trazendo ao lado outra da mesma espécie.
Até os sete anos aquele menino não teve a chance de ir à escola. Ajudava ao pai nas tarefas rotineiras.
Era ele quem cuidava da bezerrada. Limpava o curral. Tratava da porcada sempre faminta. Distribuía milho às galinhas. E colhia os ovos que sobravam da gulodice dos gambás.
Mas ele tinha um sonho. Almejava ser doutor em medicina. Pra isso um longo caminho se mostrava. Longe longe, como o céu que cada vez mais se distanciava.
Por sorte daquele menino uma escolinha rural foi inaugurada por aquelas plagas. Aos dez anos completos começou a estudar.
Não fez má figura. Era um aluno exemplar.
Mas, como tudo era difícil por aquelas bandas, o rapazola teria de se mudar.
Aos quinze anos Zezinho se mudou para a cidade. Conseguiu se matricular numa escola de bom conceito. Ali permaneceu até o final do segundo grau.
Enfim a grande chance de sua vida. Foi vitorioso no primeiro vestibular.
Naqueles tempos contava com quase trintanos. Considerado velho para dar início à espinhosa profissão.
Seis anos se passaram. Doutor José da Silva graduou-se com notas altas.
Mas não terminaram aí seus sonhos. Doutor Zezinho queria ir mais longe.
A especialidade que o estimulava a perseguir era Neurologia.
Mais uma batalha na vida do recém-formado.
Seriam precisos mais dois anos em cirurgia geral. E mais três naquela nobre especialidade.
Mas não foram as dificuldades que afastaram o bom doutor do seu caminho.
Era persistente e aguerrido.
Antes dos quarenta conseguiu seu intento. Recebeu o título de especialista.
Começou a trabalhar num hospital perto de onde morava. Dispensava condução para chegar ao trabalho.
Todas as manhãs, quase madrugada, começava o plantão.
Atendia sem parcimônia a todos que ali chegavam. Era tido notável cirurgião.
Num começo de semana, quando caminhava pensativo em direção ao hospital, não percebeu a passagem de um carro. Foi colhido em cheio. E levado às pressas ao hospital.
Foi diagnosticado como fratura de uma vértebra da coluna cervical.
E passou a ser mais um tetraplégico. Sem nenhum movimento da cabeça pra baixo.
Foi quando o encontrei durante uma visita àquele hospital.
O não tão jovem doutor, apesar de recém-formado, estava fazendo fisioterapia.
Ajudado por uma profissional da área doutor José da Silva esforçava-se entre duas barras paralelas.
Durante a nossa conversa, de pouca duração, dele ouvi este queixume: “até hoje nada consegui além dos meus sonhos. Espero um dia volte a caminhar. Quem sabe”?
Até hoje, lembrando-me daquele senhor, alquebrado pela vida, sofrida, tento perseguir meus sonhos. Se não se realizarem não irei desistir nunca de sonhar.