Amaro despertar

Era uma linda manhã de maio.

Céu azul, sol amarelo canário, sem nenhuma nuvem a macular a azulice do céu.

Mês de outono. Nem frio em destempero. Muito menos quente ao exagero.

Foi neste dia lindo que Celestino deixou a casa onde morava.

Ao seu lado dormia desassossegada a esposa. Em outro quarto dois filhos menores sonhavam com dias melhores.

Desempregado desde a semana passada o pobre Celestino dormiu quase nada.

Em pouco tempo faltaria de tudo para a sobrevivência da família.

Aos quase quarenta e cinco anos nunca se viu em situação tão aflitiva.

Formado em ciências contábeis o escritório onde trabalhava, e era admirado por todos, devido a sua competência, acabou fechando as portas por falta de clientes.

Desde então Celestino não conseguia dormir a noite.

Naqueles tempos difíceis, devido a uma enfermidade que impedia de sair às ruas, quase não se via ninguém perambulando por elas. Por um decreto da prefeitura o isolamento social foi lavrado em ata.

Embora filas enormes se formassem a porta dos bancos pessoas desesperadas engrossavam o contingente dos desempregados. E nada se podia fazer para alterar o status quo.

Foi naquela manhã risonha de outono que Celestino deixou a casa. Despediu-se da esposa amada prometendo conseguir o sustento. Passou pelo quartinho dos filhos e deu um beijo na face de cada um deles.

Era por volta das seis da manhã. Fazia um certo frio.

Tomou a condução que o levaria a um endereço onde estavam oferecendo emprego. Não era lá grandes coisas. Mas tudo serviria numa situação calamitosa como aquela.

À porta uma multidão dobrava quarteirão. Pela conta apressada deveriam ser mais de quatrocentas pessoas.

Depois de quatro horas de espera enfim chegou a vez de Celestino. Mais uma desilusão o aguardava. As vagas já haviam sido preenchidas. E nada mais restava a ele senão procurar outra colocação.

Passaram-se duas semanas. E nada de conseguir trabalho.

Em pouco tempo começaram as verdadeiras tribulações na família do pobre homem.

As contas começaram a vencer. A prestação da casa atrasou-se mais uma vez.

Foi pela undécima vez que Celestino deixou a casa. Na iminência de serem despejados o pobre coitado se viu em desespero.

Naquela manhã de uma terça-feira, ao deixar a casa, cheio de esperanças de voltar a trabalhar, eis que o infeliz sentiu no peito um apertume. Era o princípio de um infarto. Que o levou ao hospital onde não haviam vagas. Todas elas lotadas de pacientes vítimas da tal doença. Que tem ceifado vidas mundo afora.

Celestino passou duas semanas esperando a tal vaga que nunca aparecia. Foi medicado sem conseguir adentrar ao hospital.

Assim passaram-se meses. Dias se sucederam. Toda as manhãs, mesmo não estando preparado para longas caminhadas, o pobre homem partia em busca de emprego. Portas se fechavam.

Naquela manhã de outono, lindo dia, céu azul, sol a brilhar, ao deixar o leito mais uma vez Celestino sentiu por dentro uma pontada forte. A partir de então nunca mais se levantou da cama. Sofreu um acidente vascular cerebral. Foi considerado inapto para o trabalho. Mesmo sem querer foi aposentado.

Naquela manhã de outono Celestino não mais acordou. Foi sepultado numa cova rasa. Sem ao menos ser velado pela família.

Foi aquele seu amaro despertar da vida.  Igual a tantos que assistimos em nosso país nestes tempos lúgubres. Oxalá tudo passe. Tomara…

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