Ai de mim!

Relembranças fazem parte do meu eu.

Bem sei que o futuro a ele pertence. O passado são favas contadas. E o presente é que conta.

Mas o que  seria de mim não fosse ela. Sem ela nem teria nascido.

Foi naquele ano longínquo, um mil novecentos e quarenta e nove, precisamente no dia sete, dezembro, ano em nasci. Não foi aqui. Nesta cidade tão linda, emoldurada pela serra da Bocaina, que se deixa ver pelo lado direito, onde a paisagem de hoje, depois do dia das mães, se mostra de um azul imperecível.

Boa Esperanca, terra imortalizada pelo poeta Lamartine Babo, na sua “serra da boa esperança, esperança que encerra, no coração do Brasil, um punhado de terra”, foi que me viu nascer. Foi na Rua Coqueiral número 155, num sobradinho acanhado, onde pela primeira vez avistei o mundo. Foi naquela pracinha encantada onde ensaiei meus primeiros passos, levado pelo meu avô Rodartino.

Ainda tenho uma fotografia em preto e branco. Ao meu lado. Assentado a um banco com minha querida tia Cida.

São memórias indelevelmente guardadas no meu subconsciente. As quais espero guardar para sempre. Até quando eu existir.

Ai de mim se não fosse por ela. Com sua pessoa singela. Nem saberia dizer, nesta data, um dia depois de celebrar o dia delas. Ai de mim não fosse pela minha querida mãe.

Hoje não tenho a quem prantear a não ser a mim mesmo. Pois quase ninguém mais tenho a chorar nesta data que recém passou. Não tenho mais pais. Só me restam irmãos. E a outra família constituída depois do casamento é outro motivo para me alegrar.

Hoje tenho três netos. São lindos meninos. Quase da mesma idade. Falta-me uma menininha. Quem sabe seria ela parecida a minha saudosa mãe?

Talvez algum dia, quem sabe o futuro diria, seja agraciado com este presente?

Quiçá?

Mais uma vez, não me canso de dizer, ai de mim se não fosse ela, a me aconselhar, quando criança, doce infância, a ir pelo bom caminho. Nunca perseguir outro objetivo que seja não ser feliz.

Ai de mim não fosse ela, saudade daquela mulher íntegra, pura candura, que na doença do meu pai desdobrou-me em atitudes bem fortes. Foi ela quem cuidou dele durante sua enfermidade. Que o levou ao leito de morte, acontecimento que enlutou-nos a todos, mesmo sabendo da inexorabilidade do seu passamento.

Ai de mim não fossei pela sua pessoa. Que nos fez ver a vida com olhos de pura bondade. Mestra que por pouco tempo exerceu sua atividade. Mas que o fez com maestria e igual capacidade.

Ai de nós, filhos, se não fossem por elas. A elas os meus respeitos. E meus sentimentos mais puros, que foram perdidos pelos anos.

Ai de mim não fosse por ela. Faz tantos anos que ela me deixou órfão. Mas não me sinto órfão da minha saudade.

Pobre de mim não fosse ela…

 

 

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