As dificuldades dizem ser para serem superadas. Pelo menos dizem…
Assim pensava um amigo.
Gente boa, nascida e crescida na roça, acostumado ao trabalho duro, mãos caludas, cabelos sempre despenteados, caboclo experimentado na vida, que não acostumava se queixar.
Chico Pereira não era de levar desaforo pra casa. Morava numa casinha simples, caiada de cinza, janelas amarronzadas, com dois quartos nos fundos, um banheiro do lado de fora, uma salinha acanhada, e só.
Ali vivia com a esposa e dois filhos menores. Um chamado Artur e outro Felizbino.
Arturzinho era o mais longevo. Nasceu num dia de fevereiro, há exatos seis anos atrás.
Já o mais novinho contava com apenas dois aninhos. Sapeca, de riso farto, sempre com um sorrisão a enfeitar-lhe a face. Espoleta com ele só.
Aquela família oriunda do meio rural nunca desanimou face às agruras da vida.
Mesmo que o preço do leite caísse, que a roça de milho não pendoasse, devido à falta de chuva no tempo certo, ou que a melhor vaca do curral perdesse os peitos. Eram felizes e bem o sabiam.
Mas, naquele ano em curso, e que ano desgraçado era aquele, exatamente por que passamos, dois mil e vinte, deveria passar adiante, acontecia tudo de pior.
A safra de milho não vingou. A chuva não veio na hora certa. E para piorar a situação o preço do leite despencou. Ao revés do acontecido com o da ração.
Mesmo assim Chico Pereira mantinha a mesma disposição para o trabalho pesado. Acordava ao nascer do dia. Ordenhava as vacas. Enchia os cochos com a silagem de milho azedo.
Até que um feio dia, quando apitou no alto do morro o velho caminhão leiteiro, Chico foi informado que aquela seria a última vez que a produção de leite seria levada. Caso quisesse teria de levar toda a produção ao lacticínio. Que ficava numa cidade perto. A não se sabe a quantas léguas de distância.
Foi quando fui fazer uma visita ao velho amigo.
Encontrei-o desconsolado. Pensativo e ressabiado. A despensa estava vazia. A casa precisando de cuidados. Os dois filhos menores sem poderem ir à escola. Todos confinados devido a tal pandemia.
Passamos horas e horas conversando sobre a situação do país.
Pior não poderia ficar. Enquanto os mais bem aquinhoados assistem filmes pela Netflix os mais pobres enfrentam mascarados as filas dos bancos. Esperando aquele pago que nunca chega.
Na roça sobra trabalho. Que nunca é remunerado no valor exato. Enquanto na cidade o desemprego campeia solto. Como bois na invernada.
A crise pegou todo mundo com as calças na mão. Profissionais de saúde enfrentam galhardamente a tal enfermidade às custas da própria saúde. Faltam leitos nos hospitais enquanto políticos tentam apontar soluções. Debalde.
Antes da nossa despedida ouvi do amigo Chico Pereira esta admoestação: “tá difícil. Mas vamos superar”.
Tomara seja breve. Tá difícil de aguentar.