Seu Chico Alma Pura

Aquele homem bom, cujo único defeito seria bondade demais, um dia apareceu no meu consultório.

Seu Chico contava com mais de oitenta anos.

Veio acompanhado da neta. Uma linda garota, que exibia na face toda a beleza da mocidade.

Olhos negros como a asa da graúna, pele macia como pêssego, cabelos levemente ondulados, mostrava pelo avô todo o amor a ele dedicado.

Segundo ela me confidenciou vivia aos cuidados do Seu Chico. Ambos viviam solitários numa gleba de terras de sua propriedade.

Era ela quem cuidava da casa. Cozinhava, lavava a roupa da casa, e fazia todos os afazeres de uma perfeita dona de casa.

Carolina, seu nome de batismo, perdeu os pais ainda quase um bebê.

E cresceu aprendendo a fazer de tudo.

Carolina estudou até completar os dez anos. Depois evadiu-se da escola para cuidar do avô.

Viviam felizes até muitos anos. Foi quando começaram as doenças a infernizarem a vida do pobre ancião.

Foi naquela manhã de maio que a eles fui apresentado. Era um dia cinzento. Parecia que iria chover.

Carolina adentrou a minha sala em primeiro lugar. Ela gostaria de ser a interlocutora das queixas. Já que seu amado avô além de surdo era gago.

Começou explicando, pausadamente, o que o avô sentia.

Quase não dormia a noite. Dormiam em quartos contíguos. Bem pertinho um do outro.

Carolina, preocupada, assistia, semiacordada, quantas vezes o avô se levantava. E caminhava trôpego até o banheiro. Quase caindo ao chão duro de cimento avermelhado.

Foi numa noite desta, escura e cheia de estrelas, quando aconteceu o inusitado imprevisto.

Seu Chico estatelou-se no chão duro de cimento. Vindo a fraturar a bacia.

Foi preciso do auxílio de um vizinho para levá-lo ao hospital. Ali passou duas semanas internado. Felizmente recebeu alta em bom estado.

Naquela manhã de maio, parece que foi ontem, foi quando os vi pela primeira vez.

Carolina, bastante simpática e solícita, veio porta adentro escorando o pobre velho.

Para acomodá-lo à cadeira foi preciso um carro inteiro de paciência.

As queixas do consultante eram próprias da idade provecta. Dificuldade em expelir urina. Dor a micção. E mau cheiro naquele líquido que deveria ser amarelo citrino. No entanto era da cor de garapa vencida.

Quando o levei a mesa de exame foi preciso do auxilio da minha enfermeira. Ele mal conseguia caminhar.

O toque em sua próstata hipertrofiada não mostrou nenhum sinal de patologia maligna.

Seria preciso prescrever-lhe algum fármaco para atenuar-lhe os queixumes.

Assim o fiz.

Durante a nossa despedida, a amável neta, mostrado um carinho imenso pelo avô, apertou-me a mão carinhosamente. E assim o disse: “meu amado avô tem a alma pura como a flor. Seu único defeito é ser bom demais”.

Até hoje, quando me recordo daquelas pessoas singelas, lembro-me com saudade dos meus saudosos avós.

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