Vai passar…

Todos os dias Zezinho, assentado a um banquinho tosco, esperava o trem passar.

E ele sempre passava na hora certa. Antes das seis da manhã a locomotiva apitava: “piuuu”. E repetia aquele silvo agudo, correndo lépida pelos trilhos.

Logo depois Zezinho voltava a casa. Feliz da vida por ver o trem passar.

Assim era a vidinha singela daquele menino bom. Ele vivia junto aos pais numa rocinha encantada. Ali o galo cantava sempre a mesma hora. Era um canto estridente. Lindo como o despertar do sol.

Zezinho estava de férias na escola. Eram umas férias forçadas. Já que não era tempo de folgar. Acontece, naqueles meses tristes, tal pandemia assolava o mundo inteiro. Deixando famílias inteiras isoladas dentro de casa. Impedidas de se comunicarem a não ser pela internet.

Não havia internet naquele lugarejo escondido do resto do mundo. Apenas a televisão anunciava as novidades. Que sempre eram ruins. Mortes, doenças, hospitais lotados, pessoas sofrendo a espera à porta dos bancos.

Mesmo assim Zezinho era feliz e bem o sabia. Sempre alegre, bem disposto, ajudava ao pai nas tarefas da roça. Era ele quem cuidava das galinhas. Tinha pela porcada verdadeira adoração.

A renda da família se resumia na produção leiteira. Eram mais de quinhentos litros de leite a cada dia. O suficiente para terem uma vida confortável. Dentro dos padrões da simplicidade.

Acontece, naquela crise sem precedentes, um dia, era mês de maio, logo ao seu começo, assim que o caminhão leiteiro buzinou no alto do morro uma noticia ruim pegou todos de surpresa.

A partir daquela manhã o caminhão não mais voltaria àquelas plagas. Havia excesso de leite e diminuição do consumo. Toda a produção não mais seria paga. E a família do menino teria de se virar. Ou mudar de atividade. Como se fosse possível.

Foram tempos difíceis aqueles. Em casa faltava de tudo. Menos o amor que continuava forte.

Meses se passaram. E a enfermidade deixava rastros em seu caminho. Mortes eram anunciadas. Covas lotavam cemitérios. Pacientes  enchiam os hospitais.

Numa manhã de céu azul, sol a pino, Zezinho continuava a espera de o trem passar.

E ele passava sempre a mesma hora. Apitando estridentemente na curva do caminho.

Ao chegar a casa, sempre alegre, o bom menino encontrou o pai desolado. Com o corpo curvado, assentado sobre os calcanhares.

Zezinho, tentando consolar o pai, começou a conversa com aquela vozinha fanha.

“Pai”! Não se amofine. O trem acabou de passar. Sempre a mesma hora. Como ele tudo passa. Até a infelicidade que hoje nos domina.

E não é que a felicidade voltou ao lar daquela família?

A partir daquele dia tudo voltou ao normal. A doença foi contida. A renda do leite aumentou.  E a alegria retornou tal e qual como dantes.

Da mesma forma que o trem passou um dia o sol voltou a brilhar. Depois da tempestade que assola o mundo.

 

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