Não vejo a hora…

Passam os dias e eu, cada vez mais desiludido, percebo, a cada manhã, que nada muda no decorrer da vida.

Acordo sempre a mesma hora. Hoje, cinco de maio, quase dia das mães, o céu se mostra cinzento.

As ruas semidesertas anunciam de novo notícias nada alvissareiras. Crise, desemprego, desassossego, filas enormes a portas dos bancos, o mundo inteiro experimenta tempos difíceis. E nada podemos fazer para amenizar tal estado de coisas. A não ser esperar tempos melhores. Que custam a chegar. Apesar do nosso desejo.

Como gostaria de viver tempos melhores. Como aqueles da minha infância. Quando eu, de calças curtas, brincava sem antever o que iria acontecer de hoje a alguns anos. Apenas vivia na ilusão de sonhos. Sonhava de olhos abertos. Dormia como um anjo. Sem os pesadelos que hoje me atormentam.

Infelizmente os tempos são outros. Aquela doce esperança que nada iria mudar se foi pelos ares.

Um dia cresci. Experimentando a responsabilidade. Deixei a tutela dos meus pais. Para viver minha própria vida. Não me arrependo do caminho que elegi.

Anos depois me graduei. Foram anos de muito trabalho. Operava nos três hospitais. Desdobrava-me em muitos eus.

Chegava à casa fatigado. Dormia pensando no dia seguinte. Como estaria aquele paciente recém-operado? Muitas vezes era chamado durante a madrugada. A fim de reintervir naquela cirurgia que se complicara.

Mesmo assim não perdia a esperança em dias melhores. E ela ainda continua. Apesar de estes dias tardarem cada vez mais.

Não vejo a hora de rever velhos amigos. Pena que a maior parte deles já não mais está aqui.

Não vejo a hora de voltar aos velhos tempos. Embora sabedor que isso é um desejo impossível.

Não vejo a hora de passarmos por este momento difícil. Embora cada vez mais ele se distancia.

Hoje, neste dia escuro, quando o sol demora a se levantar, cada vez mais percebo que os sonhos não se materializam. Não por minha vontade. E sim por motivos adversos aos meus desejos.

Não vejo a hora de acordar novamente. Como na véspera de Natal. Esperando encontrar brinquedos debaixo daquela árvore linda. De desembrulhar os presentes sem saber quem seria o Papai Noel. Mesmo sabendo que eram meus pais.

Não vejo a hora, muito embora sabendo que tudo não passa de uma ilusão, de sairmos deste estado de calamidade. De voltarmos às ruas. Darmo-nos as mãos. Sem o medo desta pandemia que se instalou faz tempo. E não tem hora de terminar.

Não vejo a hora de rever pessoas alegres pelas ruas. Lojas abertas. O comércio em pleno vapor. Crianças brincando nas praças. Leitos de hospitais vazios. Mortes por causas naturais.

Não vejo a hora de voltar aos velhos tempos. Tomara não tarde muito. Pois estamos cansados. Desalentados . Exaustos de tanto ouvir falar nesta virose maldita.

Oxalá não tarde muito para voltarmos à vida de dantes. Quando éramos felizes e bem o sabíamos.

Não vejo a hora. Conto e reconto os minutos.

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