Tempo de vacas magras

Tião Perereca nunca viveu em dificuldades.

Alcunhado de Perereca devido ao seu costume de sempre trabalhar agachado, recurvado sobre os joelhos, saltitante como um batráquio.

Tião tinha a estatura diminuta. Pequeninho desde quando nascido. Aos quinze anos aprendeu o ofício de jardineiro.

Desde então nunca deixou esta profissão. Nascido pobre, poder-se-ia dizer remediado, o pequenino Tião, ajudado pelo pai, vivia feliz entre as pragas dos jardins.

Acordava ao nascer do dia. Aos menos de vinte anos perdeu o pai. A mãe não a conheceu. E aquele jovenzinho, trabalhador contumaz, era o esteio da sua família. Quando o pai morreu Tiãozinho passou a cuidar dos irmãos. Que eram em número de doze. Isso mesmo. Pasmem! Uma dúzia exata. Sem tirar nem por.

Era comum vê-lo, agachado, aparando o gramado. Tirando os matinhos de entre as flores. Zeloso como um bom jardineiro.

Era ele quem cuidava do meu jardim em tempos idos. Cobrava bem baratinho. Em menos de meio dia deixava o jardim prontinho. Pois, naqueles tempos áureos, logo partia para outras paragens. Pois tinha ao seu encargo outros jardins no mesmo bairro.

Acontece que o tempo passou. Anos se desdobraram em muitos.

O velho Tião envelheceu. Tornou-se quase ancião. Quando completou cinquenta parecia ter muitos mais.

Graças ao seu trabalho, de cócoras, sua coluna vergou-se. Com que dor ele se levantava. Mas nunca deixou o ser oficio de jardineiro.

Naquele ano de dois mil e vinte a coisa mudou completamente.

Tião não conseguia mais trabalhar. Tornou-se incapacitado para a sua função. Foi quando esta tal pandemia teve início.

A renda minguou. Todos os fregueses, inclusive eu, acabaram por se mudar. E nada mais restava ao velho Tião a não ser viver sob as benesses do governo.

Aos sessenta anos, completos naquele dia, Tiãozinho passava horas seguidas à porta dos bancos. Tentando receber aquele auxílio prometido. Que nunca aparecia na sua conta.

Foi numa segunda-feira que o vi.

Tiãozinho, recurvado sobre sua coluna, mal conseguia se levantar, cumprimentou-me com lágrimas nos olhos. Em memória dos velhos tempos conversamos por duas horas inteiras.

Foi quando ele, em nossa despedida, confidenciou-se melancolicamente: “quer saber? Que saudade dos tempos de outrora. Éramos felizes e bem o sabíamos. E hoje, tempos idos, não mais conseguimos tratar de nossas famílias. Tudo que era bom durou pouco. infelizmente essa é a realidade. O que fazer? Nada. A não se esperar a morte”.

Meses depois soube do passamento do velho Tião. Ele morreu a porta de um hospital. Sem ao menos conseguir atendimento.

São deveras tempos de vacas magras. Que saudade dos tempos de outrora…

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