Todo dia ele acordava sempre a mesma hora. O relógio de cabeceira marcava antes das cinco.
De um salto pulava da cama. Ia ao banheiro. Lavava o rosto com sinais de cansaço. Escovava o que restou dos dentes. Tomava um cafezinho magro esquentado da noite passada.
Mal tinha tempo para escutar as últimas noticias. Também, com a crise que grassava lá fora, não esperava outra coisa senão ouvir falar da tal pandemia, das filas enormes que se formavam a porta dos bancos, das dificuldades que o dia após dia impunha às famílias do país inteiro.
Zé Tristeza era um trabalhador como outro qualquer. Empregado numa marmoraria não via a hora de mudar de emprego. Ali, naquele ambiente insalubre, sempre a aspirar a poeira das pedras enormes e frias, Zé enfrentava a mesma rotina do dia após dia.
Almoçava ali mesmo. Esquentava a marmita num fogareiro fabricado por ele mesmo. Era uma trempe enfiada em meio a duas pedras de mármore, quando sobrava um tempinho, tanto que era o trabalho a ele destinado.
Era o responsável pela produção da fábrica inteira. O patrão, mal encarado e mal amado, dele exigia o máximo. Sempre com a mesma admoestação: “Zé, cuidado, não se atrase ao trabalho. Duas dúzias de candidatos estão a espera de seu lugar”. O pobre Zé, alcunhado de tristeza por seu semblante anuviado, nunca sorria, sempre acabrunhado, não desdenhava daquela alcunha. Quando algum amigo, dos poucos que tinha, o chamava de Alegria, ele não sorria. Permanecia com aquela cara de poucos amigos. Que o caracterizava desde tempos passados.
Naquela manhã de abril, ao amanhecer, sol a brilhar naquele céu azul, Zé perdeu a hora.
Dormiu mais do que o previsto. Não teve tempo de tomar o tal cafezinho magro. E acabou chegando tarde à marmoraria. Era mais ou menos seis e meia da manhã.
O patrão o recebeu com cara de poucos amigos. Não o repreendeu como de costume. Ao revés. Mostrou-lhe o cartão vermelho. Zé foi demitido por injusta causa. E, a partir de então engrossou a fila dos desempregados. Neste país onde tantos mendigam trabalho. Neste momento difícil por que estamos passando.
Na manhã seguinte Zé foi a luta. Acordou a mesma hora de sempre. Tomou um cafezinho acompanhado de um pão amanhecido.
Antes das seis já estava na rua. Não usava máscara. Não por falta de saber que era preciso. E sim por não tê-la entre seus guardados.
Foi quando um guarda interpelou-o bruscamente. Zé foi levado a delegacia por não portar documentos. Passou uma noite inteira entre grades. Foi solto na manhã seguinte. Por apresentar uma tosse seca e uma febrícula persistente.
A febre aumentou no decorrer do dia. Uma falta de ar foi o motivo que o fez procurar atendimento médico.
Naquela unidade de saúde lotada Zé Tristeza passou seus derradeiros dias.
Não teve tempo de ser levado a um hospital. Zé veio a falecer no sétimo dia. Sendo sepultado numa cova rasa. Sem lenço nem documento, num sol de abril.
Naquela manhã bem cedo, foi a única vez que o infeliz Zé Tristeza conseguiu quebrar a rotina.
Até hoje, quando vou ao cemitério, faço uma visita rápida ao túmulo do pobre Zé.
Ali faço uma prece rápida. Em homenagem a tantos trabalhadores brasileiros. Que deixam de viver de uma hora pra outra. Sem ao menos o direito a uma vida digna com trabalho decente. Que o exemplo de Zé Tristeza nos sirva de alerta. Num futuro perto. Quando o país tomar jeito.