Dona Flor, que não tinha dois maridos, era por ela mesma, começou a trabalhar bem cedo.
Antes dos quinze já vendia bananas na porta de casa. Nascida em berço humilde viu seus pais se separarem antes dos dez anos.
Foi quando começou a trabalhar. A mãe, que Deus a tenha, vendia seu corpo para cuidar dos filhos.
Mas, com a idade avançando, a beleza se despedindo, a pobre senhora terminou seus dias numa mesa de bar.
Florzinha passou a ser arrimo de família. Aos menos de dezesseis já era ambulante emancipada. Por aquela banca montada em duas tábuas passaram pessoas. Gente de bem, uma freguesia respeitável.
A renda não era lá essas coisas. Mas o suficiente para cuidar dos irmãos. Que eram dois meninos espertos que sempre obedeciam a irmã mais velha.
Aos vinte anos Florzinha decidiu mudar de negócio.
Hábil com a tesoura nas mãos, um prodígio na costura, a mocinha prendada começou a costurar pra fora.
A princípio confeccionava roupas para as vizinhas. Em pouco tempo a confecção expandiu. Graças a fama conquistada a duras penas.
Aos vinte cinco anos, completos naqueles dias, Florzinha começou o seu ofício de estilista. Admirada pela alta costura, fazia vestidos de noiva que eram disputados país afora.
Vendia o que produzia. Não sobrava uma só peça na pequena indústria que florescia.
Assim marchavam os anos. A diligente Florzinha chegou aos trinta anos especialista em moda. Era admirada por todos que a conheciam.
Ela conseguiu juntar um patrimônio considerável. Sua fábrica de roupas tornou-se uma marca respeitável.
Com os anos passeando, com a moda mudando, mesmo assim a confecção crescia.
Até que, já cansada do seu metier, embora ainda em pleno vigor, dona Flor continuava firme na sua costura. Era ela quem comandava com mãos de fada toda a produção. Desenhava a modelagem, cortava as peças, e ia a máquina ela mesma. Em poucos dias uma nova coleção estava pronta a ser vendida.
Não sobrava uma só peça das tantas que sua fértil imaginação imaginava.
Tudo ia bem, ou melhor, até este ano em curso.
Foi quando o mundo inteiro experimentou esta calamidade. A tal pandemia produziu estragos no país inteiro. Fábricas fechavam as portas. Empregados e patrões sofriam.
De repente tudo foi pelos ares. A fábrica de Dona Flor se viu em dificuldades.
Contrariada ela teve de fechar as portas. Depois de tantos anos de trabalho duro.
Até hoje, quando passo pela porta da confecção, ali vejo a dona Florzinha trabalhando solitária.
E ela diz, com lágrimas nos olhos: “quer saber? Agora foi o fim dos meus sonhos. Só me resta um consolo. Lutei o bom combate. Venci. Tenho a consciência tranquila. Tudo isso não dependeu de mim”.
E assim caminha a humanidade. Entre falta de responsabilidade. De quem? Não da gente, que trabalha duro. Acorda cedo. Tem de enfrentar filas enormes para chegar ao trabalho. E de repente, independente de nossa vontade, tudo muda. E chegamos a tal estado de calamidade. Quem sabe um dia tudo se transforma?
É duro observar finais de sonho como este. Depois de tanta luta. É duro contatar.