Que dia lindo amanheceu neste vinte e sete de abril.
Céu azul. Sol a clarear a dia. Nem quente ao exagero nem frio desmesurado.
Por isso é bom acordar bem cedo. Nestes tempos conturbados poucas pessoas se veem nas ruas.
A cama me cospe antes das seis. Pontualmente às seis e meia já estou aqui no consultório.
Agora uso máscaras. Tapo o nariz e abro os olhos. Acabo me acostumando a tal medida. Dizem que ela é importante para controlar a tal pandemia.
Tomara em pouco tempo nos livremos de tal enfermidade. Ela tem feito vítimas mundo afora. Obriga-nos a um confinamento. A um isolamento que tem sido recomendado pelos entendidos.
Pra mim não tem sido fácil me manter dentro de casa. Sinto falta de caminhar livremente pelas ruas da cidade. De olhar o povo sem viseiras. Sem antolhos, sem constrangimento.
Faz-me falta ir e vir. Adentrar as lojas sem restrições.
Acostumei-me a tais costumes. Desde quando me entendo por gente.
Sinto falta de liberdade. Ficar em confinamento tolhe-me a capacidade inclusive de pensar. É como se fosse ficar atrelado em algemas. Atado a um laço inarredável. Com pés e mãos atadas. Com um prisioneiro em alto mar.
Faz-me falta abraçar os amigos. Reconhecer quem se cruza comigo pelas ruas. Poder trabalhar livremente.
Já nos dias de agora tenho receio de sair às ruas. Mesmo num dia lindo como este.
Causa-me asco ter de enfrentar filas imensas. Para comprar um simples litro de leite.
Caminhar com liberdade pelas praças, acompanhar meus netinhos a correrem por aquelas alamedas agora vazias. Faz-me falta a atividade física. Na parte da tarde como de rotina ia academia.
Com a liberdade cerceada não tenho a mesma disposição de outrora. Sinto-me como um capado gordo a espera do abate. Ter as narinas tapadas sufoca-me a respiração.
Faz-se enorme falta o desejo que antes tinha de rever velhos amigos. Agora as visitas são restritas. Como apregoa a televisão.
Faz-me falta correr livremente pelas ruas. Sou considerado grupo de risco embora tenha a saúde perfeita. Oxalá ela se conserve tempos mais.
Sinto inclusive falta dos meus pacientes do serviço público. Agora tenho de me manter a distância. Para assegurar não apenas a minha saúde como a deles.
Faz-me falta o toque das mãos. O abraço apertado.
Estou cansado de tantas medidas de higiene. Antes tinha o costume de lavar as mãos. Não tanto como agora recomendam.
Faz-me falta de levar as crianças para passear. Causa-me pena vê-las trancadas dentro de casa sem poderem ir a escola. Não sei as consequências deste isolamento. Só o futuro nos vai dizer.
Faz-me falta ver o país se desenvolver. Causa-me desolação ver tantas famílias passando necessidades. O desemprego crescente. As enormes filas nas portas dos bancos causam estupor aos meus olhos cansados de tanto ver coisas ruins.
Hoje, neste dia lindo de outono, começo de semana, faz-me falta viver como dantes. Quem sabe de agora a alguns meses, dias, conseguiremos superar tal endemia? Não sei quando. Tomara dentro em breve.
É o desejo a todos vocês. Faz-me falta ver a vida voltar ao seu ritmo de antes.
Faz-me falta tantas coisas. Que se ficasse aqui, enumerando-as, gastaria um tempo enorme. Impossível dizer quanto…