Névoas do meu passado

Daqui de cima me permito ver, em parte, cenas do meu passado.

Já se foram tantos anos. Conto nos dedos setenta.

Ainda menino, moleque criança, quando brincava naquela rua, doces lembranças, tinha meus pais por perto.

Naquela casa, a de número 152, foi que passei os primeiros anos da minha infância.

Foi naquele mesmo clube, que agora mantém os portões fechados, que ensaiei meus primeiros passos pelo ambiente sadio do esporte.

Ali pratiquei futebol de salão. Era um verdadeiro perna de pau.

A seguir, estimulado pelo meu pai, enveredei-me por outro esporte. Foram as raquetes que me seduziram. Jogava em dupla com velhos amigos. Todos eles não vivem mais. Decerto viraram anjos. Jogam tênis em outras quadras.

Foi naquela rua, de tantas lembras ternas, que aprendi a colecionar amigos. Pra onde foram os meninos da Costa Pereira? Já fiz esta mesma pergunta em outras crônicas.

Hoje, neste dia nevoento, escuro, cinzento, meados de abril, aqui estou a cortejar o passado.

Passados tantos anos ainda me lembro de quase tudo. Do apreço que minha mãe tinha pelos seus filhos. Do carinho que ela nutria por nós.

De quando ia à escola, a mesma que nos dias de agora meu primeiro neto começa a trilhar o mesmo caminho, minha saudosa mãe preparava a merendeira. Cheia de quitutes que ela mesma fazia. Ensinada pela minha avó.

Na casa dos meus avós maternos, onde hoje fica o edifício Rodartino Rodarte, existia um pé de jabuticaba.  Era ali que reunia os primos. Naquela horta ampla, cheia de roseiras cor de rosa.

Na parte da frente da mesma casa morava um pé de camélia branca. Ele sempre se cobria de flores. Lindas como foi a minha infância.

São tantas recordações dos meus primeiros anos que daria um livro inteiro recheado de saudades.

Ainda me lembro do meu avô Rodartino. Caminhador como eu. Agora que não sou mais menino. Do meu outro avô, Abreu, com a mesma assinatura do meu pai, nos derradeiros anos morava na rua de baixo da minha casa. Seu Alberto, frequentador assíduo da igreja, era quem me estimulava a frequentar as missas.

Tios, Rodartes, deixaram lembranças naquela mesma rua. Ainda restam dois deles. Tios queridos. Que ainda fazem parte das minhas melhores recordações.

Naquela mesma casa hoje mora a minha querida Rosinha. Sempre a visito na parte da tarde. Menos agora, nestes dias difíceis por que estamos passando.

Hoje, meados de abril, amanheceu um dia cinzento. Dias nublados me fazem pensar no passado.

Aproveito, que o prédio ainda está vazio, para extravasar toda a saudade que mora dentro de mim.

Olho pro lado. Vislumbro aquela mesma rua. Não tenho como me desvencilhar de tanta saudade. Sinto-me intimamente ligado ao passado. Embora sabendo que o presente é que importa. E que devemos caminhar rumo ao futuro.

Hoje me aranham  por dentro névoas do meu passado. Sinto uma nostalgia imensa de tudo que passou. Mesmo sabendo que o passado não volta mais…

 

 

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