Estamos em pleno século dos absurdos.
Isolamo-nos por uma tal pandemia que nos impede de sair de casa. Tempos de vacas magras. De mendigar migalhas que o governo nos oferece. Dada à impossibilidade de ir ao trabalho. Empresas demitem. Fecham as portas. A fila do desemprego dobra quarteirão. Pessoas angustiadas ficam confinadas a espera de dias melhores. Quando será que eles virão?
São perguntas ainda sem respostas. O governo bate cabeça. Sem saber qual seria a melhor solução.
Contrariando as recomendações indivíduos saem às ruas. Alguns usando máscaras. E exposição ao tal vírus é perigosa. Pelo menos dizem os especialistas. Nunca se viu tantos médicos sendo entrevistados pela televisão.
São tempos difíceis. O mundo inteiro fica em sobreaviso. Assustadas, desiludidas, famílias inteiras assistem impávidas o desenrolar dos fatos. Até quando? Mais uma vez indago.
Voltando atrás, não precisa caminhar muito no calendário, quando tudo isso não passava de conto da carochinha.
Éramos felizes e bem o sabíamos. Podíamos andar pelas ruas sem temor algum.
Naqueles tempos bons crianças podiam brincar nas ruas. E quando usavam máscaras era tão somente em tempos de carnaval. O costume de lavar as mãos era considerado bom hábito de higiene. Não com a obrigatoriedade que hoje nos impõem.
Trocar de roupa, quando entrávamos em casa, apenas quando ela estava suja. Deixar os sapatos a porta tão somente quando pisávamos em titica de cachorro.
Bons tempos aqueles. Hoje me parecem tão distantes quando a terra da lua.
Agora falo de um tempo pretérito. De um passado que se foi ao longe.
Um tempo quando acostumávamos obedecer aos pais. Um castigo, uma piscadela de olhos, era o bastante para que nos aquietássemos.
Agora, quando os filhos são interpelados, eles nos olhos com olhos desafiadores, e ainda nos cobram a mesada atrasada. Como se eles fossem melhores alunos.
São tempos passados que ainda movem moinhos. Tempos de respeito. De consideração aos mais velhos. De trabalho duro. Mesmo recebendo salários modestos.
Agora, funcionários se sentem no direito de faltar ao trabalho. Exibindo atestados falsos. Como se aquela doencinha fosse em verdade a responsável pela ausência. E não a ressaca devido à festança do dia anterior.
Os tempos andam mudados. A palavra empenhada deixou de ser o atestado eloquente do respeito e responsabilidade.
Foi-se o tempo em que o aperto de mão, o abraço, o carinho, o estreitar de laços de amizade, era distribuído sem constrangimento aos quatro ventos. Quando pessoas, mesmo desconhecidas, podiam se cumprimentar pelas ruas sem o temor de serem assaltadas.
Tempos bons aqueles. Quando se tinha por obrigação ceder lugar aos mais idosos. Oferecer-lhes ajuda quando eles tentavam atravessar as ruas. E não existiam tantos carros quanto nos dias de agora.
Falo de um tempo que não existe mais. Ele parece ter sido engolido pela voracidade do mesmo tempo. Tempos bons. Que, infelizmente não voltam jamais.