Seu Benedito era um celibatário por excelência.
Não por não gostar de mulher. E sim por ser avaro por nascimento.
Em criança, nascido no meio rural, quando ia à escola, aquela escolinha de rica saudade, que se mudou pra cidade, ainda se lembra da hora do recreio. Levava no embornal surrado um lanche pra lá de apetitoso. Que era escondido com medo de ter de dividir com os colegas. Que olhavam desconfiados.
A fama de avarento espalhou-se além dos limites daquela propriedade. E assim cresceu. Escondendo dentro do colchão de palha uma grande quantidade de dinheiro. Que nunca era gasto. Salvo com algumas mulheres de vida fácil.
Seu Benedito, aos quase cinquenta anos, apaixonou-se pela primeira vez. Era uma linda rapariga. Que um dia apareceu na roça durante uma tempestade.
Aquela relação conturbada pouco durou. Bernadete, que nunca foi donzela, acabou desaparecendo na braquiária. Tão logo percebeu que a índole do Seu Benedito não era de dividir nadica de nada.
Mais uma vez ele permaneceu naquela solidão de dar inveja ao maior ermitão.
Vivia na própria companhia. Repartia os momentos de ócio com uma maritaca falante.
Diziam, nos arrabaldes, que Seu Benedito não estava no seu juízo perfeito. O que era verdade. Em parte.
Aos quase setenta anos, ainda vendendo saúde, por um preço nada camarada, Seu Benedito, cansado da solidão, sedento de mulher, foi fazer uma vistinha a um puteiro de má fama.
Ali se engraçou com uma dama da noite. E fizeram amor com o furor de uma égua no cio.
Dias se passaram. Meses deixaram rastro.
Foi quando Seu Benedito me procurou no consultório.
Daqui de dentro escutei a conversa entre ele e minha secretária: “o doutor não pode fazer um desconto? Estou com as finanças bem complicadas.”
Com muito custo ele pagou a importância pela metade.
Adentrou em minha sala. E explicou, meio ressabiado, que desde aquela noite apareceu uma verruguinha minúscula em seu órgão escondido dentro da calça.
Trocamos um dedo de prosa. Ele me contou detalhes de sua vida de celibatário. Que nunca havia contraído uma doencinha sequer.
Nenhuma doença de mulher.
Ao examiná-lo, depois de convencê-lo a fazer o toque, coisa que nunca lhe passou pela cabeça, foi feito o diagnostico de HPV. Uma verruga genital. Conhecida pelas línguas falantes como jacaré de crista, condiloma acuminado, e outras denominações mais.
De pronto propus o tratamento. Que seria uma cauterização feita num átimo. Que ele estaria curado. Mas como se tratava de uma doença provocada por um vírus, seria factível uma recidiva.
Seu Benedito olhou-me com olhares de desconfiança.
Antes de nos despedirmos ele me confidenciou o seguinte: “sabe doutor. Acho que peguei o tal vírus daquela coroa”.
Hoje, treze de março, pelo noticiário da televisão soube das últimas novidades da endemia do século. Não sei até quando vai continuar esta neura do coronavirus. Espero que seja tão fácil de curar como aquela doencinha tão comum que afetou o seu Benedito.
Será que a tal coroa foi a transmissora desta enfermidade? Teria sido a primeira infectada? Ainda não sei. Quem saberá?