Não vejo a hora

Agora são pontualmente seis e trinta da manhã.

Como de costume é a hora em que chego ao consultório.

Agora mesmo acabei de tratar dos peixinhos do meu aquário. Parece que eles se acostumaram a receber a ração a mesma hora de sempre.

Antes das cinco e meia saltei da cama. Tomei uma ducha morna para afastar o ranço da noite.

Faz calor. O sol brilha forte. Antes das seis já estava com um pé na rua. Quase não se viam pessoas pelas ruas. Fora algum madrugador como eu.

Tudo isso faz parte da minha rotina. Acostumei-me a proceder assim desde quando adentrei na casa dos enta. Dizem que velho dorme pouco. Talvez este fato tenha explicação na seguinte razão: dada a sua idade provecta os idosos aproveitam o máximo a luz do dia. Já que na escuridão da noite todos nós não conseguimos observar a beleza dos raios de sol, azulice do céu, o avoar desajeitado dos pardais, mesmo o acordar da criança, embalada pelos braços da mãe.

A partir de certa idade mudei meu comportamento. Aproveito ao máximo o tempo que me resta de vida. Sugo tudo que me é oferecido. Acredito que agindo desta maneira não tenha tempo para que as doenças se apoderem de mim.

Não vejo a hora de acordar mais tarde. Permanecer no leito até altas horas. Tratar a noite com mãos de puro carinho. E sair de casa depois de ficar horas a fio brincando com meus netinhos.

Pena que ainda tenho de trabalhar. Não tanto quanto antes.

Não vejo a hora de permanecer num banco de jardim. Admirando o vai e vem das pessoas. Sem me preocupar com o dia seguinte.

Não vejo a hora de poder passar horas e horas fazendo apenas o que me apraz. Já que ainda não tenho este privilégio.

Pois ainda me restam muitos anos de trabalho. Pelo menos assim espero.

Não vejo a hora de desfrutar de uma merecida aposentadoria. Apesar de considerar que o médico não tem este desfrute.

Não percebo ainda  o quão é bom ficar  sem nada a fazer. A não ser jogando conversa fora num lugar qualquer. Junto aos amigos, velhos como eu.

Não vejo a hora de fazer apenas o que me apraz. Pena que ainda tenho de engolir sapos e cuspir marimbondos.

Ainda não vejo a hora de poder passar a noite inteira contando histórias para os meus netinhos. Logo eles irão crescer. Tomara possam cuidar do que restar de mim.

Agora são sete horas. E como as horas passam frenéticas.

Não vejo a hora quando puder retardar os ponteiros dos relógios. E voltar à mocidade.

Seria um sonho? Uma utopia em verdade?

Ainda tenho tempo de ficar aqui. Filosofando sobre as horas. A partir da oito tudo volta do seu ritmo normal.

Pena que não possa ser dono das horas. Caso assim pudesse, e minha vontade prevalecesse, não sei o que faria com o tempo. Seria muita pretensão de minha parte ter o domínio sobre o tempo. E através dele  conseguisse perpetuar apenas os bons momentos.

Não vejo  hora de ficar o tempo todo apenas curtindo as boas horas de ócio. Deixando as piores ao dissabor dos ressentimentos.

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