Em menino, quando jovenzinho ainda, medos me assaltavam.
Tinha medo de ficar sozinho. De tomar o ônibus que me levaria à escola. A escuridão me metia medo. Tinha verdadeiro pavor de assombração. Passar as férias na roça, de umas tias avós, embora gostasse daquele período de descanso, quando a noite chegava, a escuridão dominava aquela noite estrelada, ficava contando as estrelas esperando o sono chegar.
Tinha medo de muitas coisas. Coisinhas de criança pequena.
Com o tempo passando, a idade me cavalgando as costas, os temores mudaram.
Hoje os medos são outros. De a saúde me abandonar. De ficar atrelado a um leito de hospital. Sem poder dizer, a não ser com os olhos, que gostaria de me despedir desta vida. E, por minha própria vontade exigir que desliguem aqueles aparelhos, retirem de meu corpo cansado sondas e stomas, e me deixem partir para algum lugar desconhecido, entre nuvens, num céu azul como o de hoje.
Aos setenta anos os medos ainda continuam a mugir dentro de mim.
Receio a perda da sanidade. De não poder identificar uma abelha de um passarinho.
O que me assusta é a pobreza e miséria que infestam o nosso país. A cada dia pessoas morrem na fila dos hospitais.
Não me mete medo o tal de coronavirus. Outras enfermidades merecem atenção maior.
Tenho verdadeiro receio do futuro que ameaça os nossos jovens. Que mundo os espera? Nestas incertezas que nos tempos de hoje predominam.
Tenho medo ainda das drogas que alucinam a juventude. Da falta de respeito aos idosos. Do desemprego crescente. Da falta de perspectivas de crescimento. Da estagnação em que se encontra o nosso país.
Temo a falta de discernimento. De não saber identificar o certo e o errado.
Tenho receio da falta de conhecimento. Da incultura que grassa por aqui.
Tenho medo da poluição que tapa a boca do sol. Da chuva que cai destemperada. Fazendo vítimas entre as pessoas que moram em áreas de risco. Vítimas de uma sociedade que só privilegia os ricos.
Antes meus medos eram outros. Com o tempo eles mudaram.
Não mais tenho medo das noites escuras. Logo elas se tornam claras.
Já hoje, deixando a infância de lado, mudaram os temores.
Agora, nestes tempos conturbados, quando a população enfrenta o fantasma do desemprego, a crise mostra os dentes banguelas, faltam leitos nos hospitais, a corrupção prepondera, uma gripinha de nada em absoluto não me mete medo.
Não usem máscaras nas ruas. Nem ao menos evitem o contato com seus semelhantes.
Como faz falta um abraço. Um carinho. Um afago.
Deixem seus medos de lado. E enfrentem com coragem as dificuldades da vida.