Nada posso fazer para atenuar-lhe o sofrimento

Quantas vezes percebi, num leito de morte, um paciente agonizante.

Amigos, aparentados, desconhecidos, em pouco tempo iriam fazer uma viagem sem volta ao além.

Naquele leito, numa sala de CTI, pessoas se despediam pouco a pouco da vida.

Esse fato aconteceu não sei quantas vezes. Foram incontáveis momentos em minha vida de médico.

Ainda me lembro de um jovem, que contava à época com menos de dezoito anos, acidentado de moto, numa estrada rural, pertinho da minha roça.

Quando fui informado de seu acidente passei a frequentar regularmente aquela antessala da morte.

Romualdo resistiu bravamente por semanas inteiras. Mas, numa noite escura, quando fui fazer-lhe uma visita rápida, percebi que aqueles olhos não se abririam mais.

O jovem foi chamado para junto de Deus. Hoje restam as lembranças daquele dia fatídico.

Assim aconteceu por inúmeras vezes. Quem convive com a vida tem de se acostumar com a presença nefasta da morte. Morte e vida convivem quase que cotidianamente.

O que seria deste mundo caso acontecessem apenas nascimentos? Ele em pouco tempo estaria entulhado de pessoas. Umas por cima das outras. Como peixes num cardume imenso.

Bem  sei que um dia terei fim. Homens, animais, todos teremos o mesmo destino. Nascemos, crescemos, deixamos a infância de lado. Sem que percebêssemos  nos transformamos em adultos produtivos. Num dia,  quando menos se espera, de jovens trabalhadores somos preteridos por outros mais jovens. E, dai em diante só nos resta a aposentadoria.

Tomara que aquele dia presumivelmente distante seja recheado de saúde. O bem mais precioso que ainda temos.

Creio que ainda esteja longe da despedida final. Só desejo, quando ela chegar, que seja rápida como um raio. E não fique atrelado a uma cama de hospital. De olhos semiabertos. Como o jovem Romualdo em seus derradeiros dias aqui na terra.

Hoje, bem cedo, céu azul, sol  brilhando intensamente, acordei a mesma hora de sempre.

É segunda-feira. Dia nove de marco. Uma linda semana se mostra aos meus olhos.

Ao chegar a minha oficina de trabalho tenho por hábito tratar dos meus peixinhos de aquário.

Um deles, o mais bonito, feericamente colorido em branco e vermelho, debatia-se no fundo daquela piscina espelhada.

Parecia que lhe faltava ar.

Agora mesmo percebo suas nadadeiras moverem-se frenéticas. Ele tenta sair daquele estado letárgico.

Enquanto os outros nadam e se alimentam da ração ele simplesmente permanece no fundo do aquário.

Tentando se desvencilhar da morte. Sugando o resto de oxigênio que adentra com dificuldades em seus pulmões.

Agora mesmo pressinto a sua agonia. Talvez amanhã o encontre boiando na superfície daquelas águas cristalinas.  Ou servindo de pasto aos seus colegas. Sendo comido quase morto pelos outros peixinhos aquarianos.

Como de outras vezes, durante a minha vida de médico, ao pressentir a chegada da morte, nada pude fazer para retardar a sua chegada. Já que morte de vida são consequências naturais de estarmos vivos.

Talvez amanhã, ou  noutro amanhã qualquer, quando aqui chegar, devo constatar a morte do meu peixinho de aquário.

Não vou dar-lhe um enterro decente. Vou deixá-lo entre seus pares. Onde ele gostava de viver.

Agora mesmo nada posso fazer para atenuar-lhe o sofrimento. Apenas orar para que sua partida seja sem dor ou maiores percalços.

Vida que lhe quero viva. Enquanto a morte não chega vamos continuar vivendo. Felizes e agradecidos por quanto tempo durarmos.

 

 

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