Enxurradas de lembranças fugidias

Não tenho como me desvencilhar do passado.

Principalmente nestes dias chuvosos. Céu cinzento. Onde enxurradas de água lamacenta despencam dos morros, provocando tragédias, soterrando sonhos de tanta gente inocente.

Ontem mesmo assisti pela televisão, em nossa cidade felizmente as chuvas não têm trazido tantos problemas, a um desastre que enlutou famílias inteiras. Encostas desabaram. E muitos infelizes perderam a vida. Debaixo de um mar de lama.

Mas não é sobre este tipo de enxurrada que tenho me recordado em tempos presentes.

São lembranças fugidias que me assaltam durante a noite.

Raras vezes sonho. Tenho o sono curto. Acordo durante as madrugadas. E não consigo voltar a dormir outra vez.

Ontem mesmo assim aconteceu. Fechei os olhos. Creio que por volta das quatro da manhã.

Nada de conseguir dormir novamente.

Vieram-me às lembranças cenas do meu passado.

Estava eu naquela rua que daqui se avista pelos fundos. Era a mesma rua por onde passo ao cair das tardes.

Não chovia. O céu azul predominava.

Naquela manhã ensolarada acontecia a festa do meu aniversário.  Contava, naquela data distante, com exatos cinco anos. Era menino ainda. Dois anos mais velho que meu neto Theo.

Não me lembro com exatidão quais foram meus presentes de aniversário.

Creio, se não me falham as recordações: uma bicicletinha de rodinhas brancas, um caminhão de bombeiro, uma calça nova. E uma caixa de bombons.

A festa transcorreu sem percalços. Primos, amigos de infância, todos presentes aos meus cinco anos.

Foi uma noite de festa que não me sai dos pensamentos. Naquela noite não dormi de tanto contentamento.

No dia seguinte, mês de dezembro, dia oito, tive meu primeiro desgosto. O caminhão de bombeiro quebrou a roda traseira. E acabou abandonado a um canto. Inútil, sem a menor chance de ser consertado.

Mesmo assim continuei meus folguedos. Aprendi a andar de bicicleta. Das rodinhas me desvencilhei em pouco tempo.

Foi naquele clube que daqui se avista, parcialmente escondido pelos prédios, onde aprendi a andar de bicicleta.

Foram muitas as quedas. Mas logo me acostumei aos tombos.

Naquele mês de dezembro, distante, quando morava naquela mesma rua, anos antes de hoje, fui levado pela primeira vez à escola. E como chorei ao me despedir da minha mãe.

Mesmo assim, no segundo dia, acabei por apreciar a vida de estudante. Usava um uniforme verde e branco. O mesmo que agora usa meu primeiro neto.

Foram tempos bons. Recheados de sonhos coloridos.

Pena que a infância teve seu epílogo. E logo cresci.

As enxurradas de lembranças continuaram na noite de ontem. Talvez influenciado pelas chuvas constantes.

Acabei acordando a mesma hora de sempre.

Agora vejo aquela rua. A rua do meu passado. Anos se passaram. E eu, saudosista emérito, não tenho como deixar de cortejar o passado.

Talvez amanhã, ou noutro amanhã, outra enxurrada de lembranças me assalte durante a noite. E vou me lembrar sempre, de fatos retratos das minhas melhores recordações. Até quando assim me permitirem. Que sejam por muitos anos mais.

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