São precisamente seis e trinta da manhã.
O dia ainda se mostra nublado. O cinza predomina. Parece, ao que tudo indica, que não deve chover no decorrer do dia.
E como tem chovido neste começo de ano. Águas ameaçadoras despencam do alto.
Por falar em altura como aprecio olhar, aqui de cima, pela janela do meu consultório, a linda visão da cidade que se descortina.
A mão direito vejo a serra da Bocaina ainda envolta pela neblina.
Um casario baixo se permite ver. Além de um edifício imponente que está situado logo em frente à ponte da linha férrea. Parte da cidade ainda dorme. E eu, acordado desde a tenra madrugada, a tudo observo com olhos esbugalhados.
Defronte a mim outro prédio empapa-me a visão. Trata-se de um edifício novo. Recém-habitado. Ele mantém as janelas cerradas. Acredito que seus moradores ainda estejam dormindo.
Logo por detrás desta edificação percebo outra parte da cidade. O aeroporto da Baunilha se deixa ver. Encoberto pela cerração. Mais próximo de onde estou mostra-se, orgulhosa como um pavão, outra universidade. A Unilavras é outro orgulho de nossa cidade. Por onde passaram tantos jovens em busca de suas destinações.
A mão esquerda se deixa ver parte do meu passado. O bairro Centenário, onde morei num futuro perto, onde nasceram meus filhos, é outro logradouro importante, que ainda faz parte indelével de minhas doces lembranças.
Encoberto pela parede do meu consultório, em outra janela se permite ver melhor, fica a rua onde passei parte da minha infância. Que saudades da Costa Pereira. A rua dos Rodartes. Por onde passo ao cair das tardes. A fim de fazer uma visita a querida Rosinha. Que nesta hora quase madrugada ainda dorme. Seu sono de menina.
Olhando daqui do alto posso ver quase tudo que desejaria. Só não consigo admirar o que vai acontecer de agora a alguns momentos. Se vai chover. Se o sol vai brilhar. Se serei feliz como tento ser.
Olhando daqui de cima não consigo observar, mesmo que eu deseje, os rumos que o país vai tomar. Pois do jeito que a coisa marcha não está nada bem. Além da chuva que não para. Da folia do carnaval que felizmente teve fim. Da crise que impera por todas as partes. Do desemprego que ainda nos atormenta. Da falta de perspectivas de crescimento que o Brasil atravessa.
Olhando aqui do alto posso ver coisas e loisas. Pessoas que se apressam em direção ao trabalho. Figuras desconhecidas apressadas nesta hora temprana. Amigos que não se deixam ver.
Como é bom olhar a cidade do alto. Seus problemas são sublimados. Seus defeitos atenuados.
Daqui de cima percebo o asfalto liso. Sem buracos. Permitindo o ir e vir dos carros.
Muitos carros passam de faróis acesos. Embora o dia já esteja claro.
E eu, acordado faz tempo, a tudo vejo com olhos observadores.
Olhando aqui de cima só não posso ver por onde anda aquela menina.
Aquelazinha que um dia admirei, como se fosse a minha cara metade. Bendita mocidade.
Tempos bons. Que não voltam mais.