Hoje chove desmesuradamente.
Choveu a semana inteira. Nunca fevereiro foi tão chuviscoso.
Enchentes, alagamentos, catástrofes naturais, enlutaram o país inteiro.
As grandes cidades, as de porte médio, inclusive as comunidades pequenas, sofreram com os alagamentos. Pessoas humílimas perderam tudo. Menos a dignidade.
Nunca se viu tanto sofrimento devido às últimas chuvas. Chove ao raiar do dia. Retorna a chuva no descer da noite.
Hoje mesmo, primeiro dia útil de março, as águas de marco prometem continuar por mais tempo.
Imagino como deve estar sofrendo um amigo de longa data. Seu Roberto, sitiante que mora num pedaço de chão, num lugar ermo e isolado, deve estar padecendo com as derradeiras chuvas. Agora, por certo, ele deve estar acordado faz tempo, a ordenhar as suas vacas.
Para chegar ao curral ele percorre o mesmo trajeto de sempre. Caminha a passos lentos. Teme escorregar naquele barro grudento. Poças de água se formam em seu trajeto. Uma lama viscosa impede seu caminhar. Quantas vezes ele escorrega e cai. Mesmo assim continua. Na sua dura caminhada até que a noite chegue.
Antes das onze Seu Roberto já está preparando o almoço. Ele vive solitário. A família o deixou para morar na cidade. Onde pensavam encontrar melhores oportunidades de vida. Já que a vida na roça é difícil. Quase impossível para as mulheres. Mulher na roça não tem futuro a não ser para cuidar do marido.
Hoje acordei com uma preguiça danada. Lá fora chovia. Foi quase impossível saltar da cama. Com a chuva que caía do lado de fora seria melhor continuar ali mesmo. Assistindo a televisão. Debaixo dos lençóis de linho branco. Na adorável companhia da minha esposa.
Mesmo assim deixei o apartamento em direção ao consultório. Poucos passantes se viam nas ruas. O caminho era curto. Dispensei o guarda-chuva.
Era uma segunda-feira motivo de lamentações. Dada à chuva que caía incessantemente. Ao mau tempo que prevalecia.
Março tinha início. O ano em verdade começava. O país inteiro lastimava-se da crise dominante. O desemprego não tinha fim.
E eu, desanimado, desalentado, não tinha motivos para me alegrar. Tudo ao derredor me lembrava desalento e tristeza. O tempo escuro. A falta de sol a iluminar o entorno. O cinza que predominava.
Mesmo assim deixei o apartamento. Desejando ficar ali. Debaixo das cobertas. No quentume do regaço da minha parceira.
Foi então que passei a reclamar.
Questionei o tempo ruim. As chuvas que caíam sem cessar. Da situação aflitiva em que viviam grande parte das famílias país afora. Mercês do desemprego. Da falta de dinheiro. Das mínimas condições de viverem felizes. Como eu felizmente desfrutava.
Reclamei da falta de perspectivas de crescimento por que o país atravessa. Das enchentes que assolavam o Brasil inteiro.
Contestei inclusive este começo de mês. Onde chove ao desvario. Onde o cinza predomina.
Esta segunda-feira promete mais chuva no decorrer do dia. Mais um dia nublado deve persistir.
Foi então, neste exato momento, voltei meus pensamentos ao amigo Roberto.
Ele deve estar atolado até o pescoço naquele curral cheio de lama. A espera do caminhão de leite que não se sabe se vem.
As vacas ruminam famintas. Mas a silagem de milho acabou apodrecendo. Devido à umidade excessiva.
A lenha que usa para cozinhar está ensopada. O botijão de gás acabou na semana passada. E não teve como ir a cidade. A estrada se mostra intransitável.
Mesmo assim ele está feliz. Mesmo com tantas adversidades.
E eu, com todas as razões para estar feliz, continuo a reclamar da chuva que cai. Do mau tempo que predomina. Da crise que atravessa o país.
Pensando no amigo Roberto, e em todas as pessoas que vivem no campo, naqueles sem teto, que não têm onde morar, por que razão continuar reclamando de tudo?
Reclamar de quê? Deixe a vida me levar.
Agora mesmo o sol se levanta. No mais tardar amanhã. Ou, quiçá, noutro dia qualquer.